1946 - INCÊNDIO ESTAÇÃO DA LUZ
A Estação da Luz começou a servir o povo por volta do ano 1900, época em que se completaram as obras da duplicação das linhas da estrada, que havia sido lançada em 1867, com a linha singela de 1 metro e 60. Esse trabalho que fora iniciado em 1895, concluiu-se em 1901, mas a estação principal fora inaugurada um ano antes.
A estação primitiva, de dois andares apenas, era um edifício vetusto e arcaico, de diminutas proporções. Estava ainda no nível da rua Mauá e, por ali estacionavam, nas horas das chegadas de comboio, os velhos tilburis ou carros puxados a cavalo, que o povo denominava pitorescamente de "caçambas". Na duplicação da linha fez-se, então, o desnivelamento artificial, desde a Moóca, para terminar numa espécie de subterrâneo em que se assentavam os alicerces.
Uma particularidade desse edifício é que quase tudo foi projetado e construído na Inglaterra. O grande arcabouço de aço, as arcadas gigantescas, as pequenas pontes da rua Mauá ao Jardim da Luz, vieram das forjas inglesas, assim como os desenhos arquitetônicos. Esse grande prédio da nossa cidade era constantemente um ponto de referência para os que tinham obrigações a cumprir em hora exata. Desde o seu início a "São Paulo Railway", contratara o velho relojoeiro Fox que cuidava de regulá-lo escrupulosamente de acordo com as indicações meteorologicas. Durante anos a fio, o meticuloso funcionário que era um perito na sua arte, regulou pelo relógio da Estação da Luz a nossa vida cotidiana.
O incêndio que o destruiu irrompeu às duas horas, da madrugada, do dia 06 de Novembro de 1946, mas ele trabalhou ainda sobre imenso braseiro, até às 4 horas e 10 minutos. Essas foram as últimas badaladas que fez ecoar pelos recantos da cidade, depois de tantos anos.
Às duas horas e quinze da madrugada, os bombeiros da segunda zona, aquartelados na Alameda Barão de Piracicaba, foram inteirados do sinistro e seguiram para a Estação da Luz com dois carros tanque, dois carros de transporte e um carro com uma escada de 20 metros, foram as primeiras guarnições a chegar no local.
Os bombeiros iniciaram imediatamente combate ao fogo. As chamas, porém, alimentadas pelo abundante madeiramento e móveis, tinham ganho vulto inacreditável em poucos minutos. Foi então solicitado pelo comandante Índio do Brasil, reforço da Estação Central, a rua Anita Garibaldi, e imediatamente, os bombeiros e todo o material desta estação rumaram para o local.
Os soldados, entretanto, desde logo verificaram que não podiam dar combate ao fogo com eficiência necessária, pois havia falta de água. Enquanto que várias providências eram tomadas para que o precioso líquido aparecesse, o sinistro aumentava de maneira assustadora, transformando a antiga estação num verdadeiro braseiro. As labaredas alcançavam grande altura e o clarão provocado pelo fogo era visto a vários quilômetros de distância.
Nessa ocasião, entretanto, o fogo já havia alcançado outras seções dos escritórios da estrada de ferro, tornando impotente os trabalhos dos bombeiros para dominá-lo. E que além da rapidez incrível com que as chamas se alastravam, a água continuava a faltar.
Os bombeiros procuraram novos registros e a falta dágua os preocupou durante cerca de uma hora, foi então que um bombeiro, lembrou de utilizar a água do lago do Jardim da Luz, e mangueiras foram estiradas nessa direção e a água que ali se encontrava foi retirada por uma possante bomba, que prestou grande auxílio a tarefa de dominar o fogo que tudo destruía.
Os momentos emocionantes se sucediam, o teto da Estação da Luz, desabou. E como era feito de chumbo, durante mais de uma hora as chamas que se desprendiam a combustão eram azuis, de um azul violeta. Antes porém desse desabamento o fogo já atingia o segundo andar, alcançando e destruindo as seções de contabilidade e tesouraria.
O segundo torreão desabou as 3 horas e meia, enquanto o fogo continuava a subir pela torre principal, que se assemelhava ao longe a uma gigantesca tocha olímpica. Às 5 horas e meia, a cúpula da torre principal veio abaixo. O relógio ali instalado também se desprendeu e caiu com o sino.
O incêndio foi dominado somente às 9 horas da manhã e sob as ordens do Comandante Índio do Brasil as guarnições retornaram ao quartel ficando no local apenas trinta e dois bombeiros, comandados pelo aspirante Eduardo Conceição Cordeiro, distribuídos em diversas partes do edifício sinistrado, procurando desta forma, evitar que novamente as chamas se manifestassem.
Medidas protetoras foram tomadas pelo aspirante Eduardo, isolando toda a área que dava para os lados do Jardim da Luz, evitando com isso possíveis vítimas caso as paredes laterais do edifício viessem a ruir.
Durante os trabalhos de combate às chamas, apenas dois bombeiros ficaram feridos, o Cabo Horácio Pires de Oliveira, que sofreu escoriações no rosto e o Soldado José Antunes Neto, atingido uma das mãos por estilhaços de vidros que se desprenderam das janelas do prédio.
A reconstrução da Estação da Luz foi feita pelo governo federal e só foi concluída em 1951. A arquitetura original foi preservada, mas com alterações significativas. A principal foi no prédio administrativo, com a construção de mais um andar. O terceiro, justamente o mais destruído nesta segunda.
Desde então, a estação passou por diversas transformações. Suas instalações ficaram degradadas após décadas de virtual abandono, mas foi recuperada na década de 1990 com um projeto do arquiteto Paulo Mendes da Rocha. O mesmo que trabalhou nas adaptações do edifício para a chegada do Museu da Língua Portuguesa, em 2006.
Pesquisador: Sgt Eduardo Marques de Magalhães
Comentários
Postar um comentário