A CORRIDA PARA INCÊNDIOS
O Comandante Soares Neiva, recebeu das mãos do então Secretário da Segurança Pública, o eminente sr. Washington Luiz Pereira de Souza, a honrosa e significativa incumbência de executar, enfeixando em sua autoridade todas as fases do magno empreendimento. Serviço de natureza complexa, pois que importou na extensão por via subterrânea, dos cabos de avisos tanto os do Corpo de Bombeiros como os da Assistência Pública; no preparo de técnicos em telegrafia e de automóveis, com montagem de oficinas apropriadas, dava-se em 1910 a substituição do material a tração animal pelo de automóvel, grande novidade na época, mesmo entre países adiantados.
Contrastando com o regozijo público, pelo acontecimento, amanheceu triste a cidade, chuvoso o dia da inauguração. É que São Paulo ia perder uma de suas características mais interessantes: a corrida para incêndios.
Quem, em São Paulo, ficaria em casa, naqueles idos que distanciam tanto, sabendo da existência de um incêndio na cidade Ninguém, de um certo modo falando. Que responda a lembrança, ainda viva na memória de muitos paulistanos, dos sinistros que devoraram o antigo Teatro São José, a Loja da China, a Casa Alemã, todos no centro da cidade. Justifica-se, aliás, a curiosidade.
O incêndio é um espetáculo sempre novo e empolgante. No tôrvo aspecto exterior de todos, há facetas que os distinguem um dos outros, diferentes coloridos, vibrações próprias a cada modalidade, fulgurações radiosas de chamas vivas ou soturnos desenvolvimentos entre fumo denso.
Mais sugestivo que o próprio incêndio era porventura a corrida para sua extinção. Para maior eficiência do serviço, dormia o comandante no próprio quartel, indo em casa fazer as refeições, lá pousando uma vez na semana, de sábado para domingo.
Assim, ao soar a campainha de alarma, instalada no pátio do quartel, as parelhas de muares (mulas), amestradas, abandonavam as baias onde permaneciam arreadas, indo colocar-se no varal da viatura que deviam conduzir. Não erravam. Dentro de segundos, as guarnições a postos, cada bombeiro no seu lugar, em cada veículo o archote de querosene aceso, derramando em torno uma claridade baça, avermelhada, rompia-se o cortêjo em disparada infrene, pela noite a dentro.
O primeiro a partir era o carro de mangueiras, leve, veloz, com o oficial de prontidão ao lado do cocheiro, o corneteiro à esquerda; seguia-se-lhe a bomba a vapor, desprendendo fagulhas da caldeira acesa, fazendo pressão; outros a acompanhavam: o carro de materiais, o transporte de pessoal, a escada “Magyrus”, a pipa d’água.
Era uma cena indescritível, plena de lances de temeridade e de anseios, agravada ainda com as notas dolorosas e arrepiantes do toque de alarma que o corneteiro fazia vibrar na noite imensa. Já se encontrava no local do sinistro, o comandante Neiva, que o seu carro, “Vitória” transportara, rápido. Já abrangera com o olhar de mestre todo o cenário da luta. Medira as proporções do incêndio, investigara sobre a matéria em combustão, o lugar onde começara. De ponto favorável ia distribuindo as guarnições, à medida que o material chegava, dando ordens que o corneteiro repetia em notas cristalinas.
Terminado o serviço, recolhiam-se os bombeiros ao quartel, alegres, em festa, certos de haverem agradado ao chefe. Sabiam que no dia seguinte a “ordem do dia” diria da satisfação que o dominava, pela boa vontade, pelo esforço, pelo espírito de sacrifício que em cada qual notara durante a refrega. Este o único prémio a que todos almejavam.
Pesquisador Sgt Eduardo Marques de Magalhães
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