CAVALOS, MUARES E BOMBEIRO

Cavalos são equinos machos. Éguas são fêmeas e também equinos. Os muares dizem respeito aos burros (machos) e mulas (fêmeas), assim como os bardotos machos e fêmeas.

Temos, além disso, os asininos, conhecidos como jumentos e jumentas.

Os muares (burros e mulas) decorrem do cruzamento de um jumento (Equus asinus) com uma égua (Equus caballus); já os bardotos - machos e fêmeas decorrem do cruzamento de um cavalo com uma jumenta.
Todos os muares são animais hibridos e consequentemente estéreis, ou seja, incapazes de se reproduzir. Dependendo da região do Brasil, os asininos ganham nomes diferentes. O jumento, por exemplo, também é conhecido como jegue, jerico ou asno; a mula também pode ser conhecida como besta. 

Muares e cavalos são parceiros da humanidade desde a Pré-história. Os ancestrais selvagens foram domesticados por volta de 5 000 a.C., praticamente ao mesmo tempo que os cavalos.

Sua origem está ligada à Abissinia (atual Etiópia), onde era conhecido como onagro ou burro-selvagem. O burro é, desde tempos remotos, simultaneamente utilizado no meio rural para auxiliar nas tarefas agrícolas, transporte de cargas e para transporte.

Há séculos, é promovido o cruzamento entre asno e cavalo, de que resulta o híbrido muar, com características de ambas as raças: robustez, capacidade de adaptação a caminhos acidentados e ao meio ambiente adverso, docilidade; pernas mais longas e, portanto, maior velocidade e maior facilidade de treino.
A Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros utilizam os serviços de equinos e muares desde as origens das Instituições.

Quando da fundação da Polícia Militar, seu primeiro aquartelamento funcionou, a partir de 1832, na ala térrea do convento do Carmo, próximo ao atual parque Dom Pedro II. Como o efetivo inicial fixava 100 homens a pé e 30 a cavalo (efetivo nunca completado, segundo relatou no final do ano o brigadeiro Tobias de Aguiar à Assembleia da Província, pelo baixo soldo oferecido), os cavalos foram rapidamente incorporados aos "Permanentes". Não havendo baias no convento, eram deixados a pastar livremente às margens do rio Tamanduateí, que mansamente deslizava logo abaixo.

Periodicamente, esses cavalos eram levados à Invernada do Barro Branco, para repouso e engorda. As campanhas de guerra cumpridas pela Polícia Militar na Regência e II Reinado determinaram a incorporação à tropa de muares e de seus condutores, para transporte de medicamentos e do "trem de cozinha", que permitia produzir refeições em campanha.

Em 16 de fevereiro de 1880, um incêndio de grandes proporções iniciou-se na madrugada e consumiu parte do edificio da Faculdade de Direito e da igreja de São Francisco, afetando principalmente a biblioteca e os arquivos da faculdade.

O jornal "A Provincia de São Paulo que em uma década passaria a chamar-se "O Estado de São Paulo", registrou o episódio em cores vivas em sua edição de 17 de fevereiro: A intensidade do fogo - a falta de pessoal amestrado em serviços de extinção de incêndios, a ausência completa de instrumentos necessários em tais casos, como bombas, baldes, machados etc, a deficiência de água nas primeiras horas da catástrofe, eram terríveis prenúncios de que não se salvaria nem o edificio da faculdade, nem a sua biblioteca. As praças, porém, do Corpo de Urbanos, do Corpo de Permanentes, o povo, os miseros carroceiros com suas pipas de água, atiravam-se como verdadeiros heróis contra a fúria das chamas e muitos deles esquecidos dos próprios perigos, conseguiram dentro de algum tempo limitar o incêndio, de modo que às seis horas da manhã estava ele completamente dominado.

O projeto de lei foi lavrado no mesmo dia e a criação do Corpo de Bombeiros deu-se por lei em 10 de março de 1880. No inicio, os Bombeiros não disponham de viaturas. A partir de 1883, com a chegada das primeiras carroças para transporte de material e pipa, o Quartel de Linha não comportava mais, pois os portões eram estreitos para permitir a passagem dos novos veículos, motivando a mudança para as novas instalações, situadas no local onde hoje está instalado o moderno complexo da Central dos Bombeiros. Com o passar do tempo, muares foram destinados a rebocar carroças, para o transporte de materiais, as bombas a vapor e as escadas. Parceiros do perigo de seus irmãos humanos, os muares portavam-se com destemor e prontidão no cumprimento do dever.
Como relata o livro "Éramos Vinte", A Seção de Bombeiros foi estruturada com 20 praças da Companhia de Urbanos, sob o comando do alferes José Severino Dias, oriundo do Corpo de Bombeiros da Corte. Posteriormente, ela foi equipada com duas bombas francesas, duas bombas quimicas abafadoras, duas bombas vienenses, com força para atingir um prédio de dois andares e quatro pipas movidas a tração animal. Do cotidiano da cidade, faziam parte os muares, puxando os tilburis (bondes a burro), conduzindo os aguadeiros, leiteiros e padeiros, assegurando a mobilidade urbana e atendendo as familias, o comércio e os serviços.

Em caso de incêndio, também lhes competia cooperar com os Bombeiros no transporte de material de apoio. E quando soava o alarme de incêndio, lá estavam os muares prontos para receber a canga e rebocar os veiculos até o local do sinistro. Inteligentes, conheciam os toques de corneta, os toques de sino e, com o advento da eletricidade, das campainhas e sirenes. Para repouso e engorda dos muares, os Bombeiros dispunham de sua própria Invernada, situada no Ibirapuera, no local onde hoje está o ginásio, então uma área inóspita e alagadiça. Com o saneamento do espaço e a construção do Parque do Ibirapuera, o espaço ganhou nova função.

Mas ali ainda resta a rua dos Bombeiros, ligando a avenida Brigadeiro Luís Antonio à rua Manoel da Nóbrega, testemunha silenciosa de um tempo que já passou. Em 1900, o Bombeiro chega a Campinas. Ali, a meticulosidade dos gestores preservou mesmo o nome dos muares: "ventania", "tornado" e tantos outros. E ai de quem maltratasse os bichos: os assentamentos de época ainda hoje registram as punições severas, aplicadas aos humanos há mais de um século, por aplicarem castigos cruéis aos animais. Em 1892, relata "Éramos vinte", o alarme por meio de badalos dos sinos fora substituido por chamadas telefônicas, sistema de comunicação que havia chegado a São Paulo em 1882. Três anos mais tarde foram montadas 50 caixas para aviso de incêndio, chamadas Linhas Telegráficas de Sinais de Incêndio (Sistema Generst), com aproximadamente 70 quilômetros de extensão, operadas por telegrafistas civis graduados militarmente.

A instalação de um novo sistema de alarmes urbanos, fabricado pela norte-americana Gamewell Fire Alarm Telegraph, teve sua implantação finalizada em 1911, e as caixas de alarme, pelas quais se podiam solicitar à Central o apoio de Bombeiros, policiamento, carro de presos ou carro de cadáver, prestaram quase meio século de bons serviços à cidade.

O tempo passou e, a partir de 1911, a frota do Corpo de Bombeiros começa a se mecanizar, quando recebe seus seis primeiros veículos motorizados, sendo três para o combate a incêndios, adquiridos da inglesa Merryweather & Sons.

Em 1915 é criada uma autoescola, pioneira do país, para habilitar Bombeiros na condução de automóveis. Mas até o início dos anos 30, as viaturas automóveis - de complexa operação e manutenção, lentas e pesadas suscitavam dúvidas nos Bombeiros quanto à sua superioridade em relação às viaturas hipomóveis. Por isso, esses dois modais - viaturas auto e viaturas rebocadas por muares - conviveram por cerca de 20 anos.

Mas, por fim, prevaleceu o avanço tecnológico. Em meados de 1932, relata o grande historiador e Bombeiro Luiz Sebastião Malvásio, a Invernada dos Bombeiros foi entregue ao Regimento de Cavalaria, pois não havia mais muares em serviço no Corpo. Assim, com o avanço inevitável da motomecanização, os muares foram sendo dispensados do serviço de Bombeiros e vendidos aos carroceiros portugueses que faziam ponto na praça da Sé, onde ofereciam serviços de carreto ao público.

Mas havia um problema. O quartel do Bombeiro ficava na velha rua do Trem (hoje Anita Garibaldi), ao lado da praça da Sé.

E bastava soar o alarme de incêndio, e os muares desembestavam, com português e carga no lombo, tentando se encaixar nas suas antigas baias, agora ocupadas pelo modernos "Merryweathers".

Enquanto os cocheiros desfiavam toda sorte de improperios contra os muares, os Bombeiros os acalmavam, falando docilmente com eles, até conseguir movê-los para fora das baias, liberando espaço para a corrida do socorro automóvel.

Dizem que quem foi Bombeiro um dia, haverá de morrer Bombeiro. Esses heroicos muares, mesmo preteridos pelo progresso, xingados e castigados por seus novos condutores, nunca abdicaram de sua vocação. Em seu coração e em sua conduta, foram Bombeiros também.  

                        "ATÉ O FIM"

Fontes: Texto do Cel Luiz Pesce de Arruda publicado na Revista dos Bombeiros - Anabom Associação Nacional dos Bombeiros - Edição 08 Abr/Mai/Jun 2022

Pesquisador: Sgt Eduardo Marques de Magalhães 

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