MOVIMENTO PARA AUTONOMIA DO CORPO DE BOMBEIROS

Em 7 de Novembro de 1945, assumiu a interventoria do Estado de São Paulo o embaixador Macedo Soares, sendo recebido, entre outros, por quatro oficiais bombeiros. O embaixador era conhecedor dos serviços de bombeiros, pois, quando das Revoluções da década de 20, estivera preso por dois anos na Estação Central do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro e nutria grande admiração pela Corporação. Por tal motivo havia um perfeito entendimento entre o comando do Corpo de Bombeiros e o interventor.

No seu governo foi nomeado uma comissão, em 11 de Agosto de 1946, pelo Secretário da Segurança Pública e composta pelo, Coronel Índio do Brasil, Dr Bráulio de Mendonça Filho e o Consultor Jurídico da Secretária de Segurança Pública, para elaborarem o ante-projeto de um decreto-lei restaurando o Corpo de Bombeiros.
Visava essa Comissão dar-lhe uma organização compatível com os objetivos, agora diversos, de Bombeiros do Estado.
Dentro desse mesmo esquema de organizar um Corpo de Bombeiros para o Estado de São Paulo, desde 1944, por designação do Comando do Corpo de Bombeiros, diversos oficiais percorriam o interior do Estado de São Paulo para colher subsídios visando a nova organização. Foram visitadas, antes da entrega dos trabalhos finais, a cidade de Campinas (que possuía Bombeiros Municipal), Bauru, Marília, Sorocaba, Santos (também possuía Bombeiros Municipal), Ribeirão Preto (também possuía), Franca, São José do Rio Preto, São Carlos, Araraquara, Presidente Prudente, Botucatu, Araçatuba, Limeira, Piracicaba, Taubaté e finalmente Jundiaí. Dessas cidades, a época, somente foi criado o Corpo de Bombeiros de Jundiaí, em 1946, sendo que posteriormente, com exceção de Botucatu, foram criados Serviços de Bombeiros em todas as demais cidades.

O trabalho de criação do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo surgia, muito bem planejado. As ideias dos oficiais do Corpo de Bombeiros eram pelo estabelecimento de um Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo, desvinculado da Força Policial, e apesar da tentativa de mante-las em sigilo, acabaram sendo ventiladas.

Houve uma reação contrária por parte da Corporação, perfeitamente compreensível dentro do contexto da época, embora o serviço de bombeiros fosse posteriormente prejudicado.
A Ocorrência da 2ª Guerra, alguns anos antes, ainda garantia à Força Pública funções militares, porém isto já não mais ocorria no final da década de 40. É quando, a organização procura exercer funções de policiamento junto ao público. Ora, se a Força Pública estava a procura de funções e a única que claramente exercia de modo organizado era a de extinção de incêndios era evidente que não queriam perde-la. Perdendo os serviços de bombeiros, a Força Pública perderia uma de suas principais destinações. A consciência disso assustou o pessoal, que lutou pela permanência do Corpo de Bombeiros dentro da Força Pública, como se isso representasse condição fundamental de sua sobrevivência e desenvolvimento de seus serviços. Os fatores que levaram a esta conclusão: além de comandar o Corpo de Bombeiros ser um grande trunfo político, sendo um fator para justificar despesas, ele já possuía meios e uma infraestrutura que poderiam ser aproveitados de imediato, como realmente aconteceu, para os serviços do policiamento.
A reação se iniciou com a publicação do panfleto apócrifo "Razões que desaconselham a autonomia  do Corpo de Bombeiros da Força Pública".

A comissão nomeada se reuniu em outras datas, expondo e amadurecendo as análises e propostas.
O Coronel Índio do Brasil, foi passado para a reserva a sua revelia, o fato é que, com a sua saída e mais tarde a transferência dos oficiais que haviam participado das análises e sugestões para autonomia do Corpo de Bombeiros, morre o que ficou conhecido como o "Movimento para Autonomia do Corpo de Bombeiros".

O frustrado movimento gerou algumas consequências, e a partir de então, enxergava-se em qualquer tentativa de alteração de organização, de instrução etc, intenções de separação e não especificamente de melhoria dos serviços.
Surgiu também a alcunha "Separatista", dirigida aos oficiais que participaram de tal movimento. Finalmente, a partir daí houve uma queda muito grande do serviço. Iniciou-se com a transferência dos oficiais, ocorridas após 27 de Maio de 1947.

O novo Comandante que assumiu era oriundo do Regimento de Cavalaria. Ao invés de agir como Índio do Brasil, que não trocou para si o comando das ocorrências, por não possuir a formação técnica e experiência necessária, o novo Comandante resolveu assumir plenamente. A consequência se fez imediata, no dia 30 de Abril de 1947, no incêndio na Avenida Circular, n° 1, bairro da Mooca, ele determinou que se armasse uma escada mecânica, fora de ângulo e sobre a área do incêndio, embora advertido que tal procedimento era contrário a técnica. Resultado: o calor do incêndio atuando sobre o metal, empenou o equipamento que não mais conseguiu desarmar, tendo voltado para o Quartel elevada.

Providências foram tomadas para conter o movimento de autonomia e a partir de 9 de Maio de 1947, foi determinado que toda a frota da Força Pública, passasse a se servir das Oficinas do Corpo de Bombeiros.
Além da sobrecarga que gerou o colapso das Oficinas, outra intervenção se colocou com o encerramento, em 13 de Maio, da Seção de Alistamento que funcionava no Corpo de Bombeiros. Em 1949 o Corpo de Bombeiros não mais possuía Oficinas. Elas haviam sido transferidas para a Força Pública.

A alta cúpula, por desinformação, não entendeu os objetivos dos Oficiais e respondeu com represálias violentas. O que se queria, não era desintegrar a Força Pública, mas aumenta-la, criando um Corpo de Bombeiros autônomo dentro da Força Pública. A idéia, todavia, continuaria latente.

Texto: Revista Incêndio ano 2 - edição especial 
Março - Abril/80

Pesquisador: Sgt Eduardo Marques de Magalhães        

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