NOS TEMPOS DA TRAÇÃO ANIMAL
Numa dessas manhãs frias e úmidas, raras em Santos, é verdade, fui procurado pelo senhor Farias, de uns 70 anos de idade, antigo servidor municipal, que a muitos idos, servia no Corpo Municipal de Bombeiros de Santos, no tempo da tração animal e das bombas a vapor.
Ele, velho caçador, veio pedir-me uma japona usada, peça muito boa para agasalhar-nos do frio, principalmente, quando numa espera e em noites frias.
Conversa vai, conversa vem e ele olhando o que hoje temos, disse: É verdade, Sr. Comandante, há muitos anos - e com os óculos caídos no nariz a lá Jânio - quando surpreso, apontou, com o dedo em riste e fez uma pausa explicativa, acho que o senhor nem era nascido - ali, onde estão as viaturas, eram as baías e lá, mais adiante, ficavam as carroças das bombas a vapor, tocadas a fogo de lenha e puxadas a burros.
Era gozado, Sr. Comandante, continuava ele, a gente ver um alarme de incêndio. A burrada ficava agitada, frenética, nervosa. Mal se lhes abriam as baías e eles saiam correndo, um a um ou em parelhas para as viaturas, onde costumeiramente eram atrelados. Sabiam isso tão bem, melhor até que muitos soldados.
Era engraçado, prosseguia, quando alguém novato ou novata ficava indeciso, sem saber onde entrar, jogava no bicho e formava um deus nos acuda. Relinchos e coices a granel. Tudo era possível, até comerem juntos nas mesmas cocheira; porém não admitiam erros na "trela"; tinham ciúmes disso e, muito compenetrados aguardavam aflitos, junto aos seus carroções, o momento de encilhar e o sinal de partida.
E quando tudo isso estava pronto, o que era coisa de minutos, largavam-se, faceiros, alegres e compenetrados em corrida célere e ordenada, portão a fora, ao som característico da sineta barulhenta, "sui generis" dos bombeiros da época.
Sr. Comandante, sem ofender ninguém, prosseguia, eles eram mais inteligentes que muitos soldados e, dificilmente, esqueciam-se de suas obrigações.
O senhor sabe que ninguém comprava burros, em Santos, para usá-los na cidade sem perguntar, primeiro, se eles não haviam servido no Corpo de Bombeiros.
Isso porque, Sr. Comandante, não foi uma nem duas vezes, que ao chegarmos aos incêndios, tínhamos duas ou três carroças, a mais com seus cocheiros, velhos e rijos trabalhadores portugueses, suarentos e cansados, maldizendo, pois, não raras vezes vinham a pé, correndo atrás de suas carroças, que lhes haviam deixado de surpresa.
É que os burros, que haviam servido nos bombeiros, Sr. Comandante, nunca se esqueciam do barulho da sineta e mal a ouviam, estivessem onde estivessem, tudo deixavam e saiam, em corrida desabalada, atrás da guarnição dos bombeiros, às vezes deixando o novo dono a ver navios.
É verdade, Sr. Farias, o "uso do cachimbo faz a boca torta".
"Bons tempos, Sr. Comandante, bons tempos"
E com essa frase se despediu esse homem, "História Viva de Uma Época", levando sob o braço sua pleiteada japona.
Santos, 22 de agosto de 1960.
Texto: Capitão Paulo Marques Pereira
Pesquisador: Sgt Eduardo Marques de Magalhães


Comentários
Postar um comentário