O CASARÃO VERMELHO


Tem o Casarão Vermelho a sua história. Viveu, no silêncio de sua austeridade, os dias gloriosos de São Paulo. E testemunhou, altivo, mudo, os episódios trágicos das revoluções e guerras que martirizaram a pacata e laboriosa população.

Entretanto, viveu ela a apoteose dos dias fulgurantes de nossa história cívica.
Aconteceu que, já no crepúsculo da Monarquia, numa de suas viagens a Província de São Paulo, após ríspida jornada pelo Interior paulista, viajando pelos rios Tietê e Mogi Guaçu, de carro de boi e de trem de ferro, o Senhor D. Pedro II retorna a Capital no dia 12 de Novembro de 1886. Fazia-se acompanhar de sua nobre consorte Dona Teresa Cristina, e dos Srs. Barão de Parnaíba e Visconde de Paranaguá.
Visitou, então, S. M. Imperial as instituições mais importantes, e também, o incipiente Corpo de Bombeiros, a modesta Seção de Bombeiros instalada na rua do Quartel que mais tarde passou a denominar-se, Onze de Agosto.
Terminados os exercícios em homenagem ao Soberano, D. Pedro II agradece as manifestações em sua honra. Porém uma advertência deixou para os Srs Presidente da Província e Comandante dos Bombeiros:

"Ainda está muito atrasado! Quando eu vier outra vez quero encontrar isto melhor!"

Ordens urgentes foram então encaminhadas  ao Tenente Alfredo José Martins de Araújo, chefe do contingente de Bombeiros, resultando daí a transferência da nascente Corporação para a rua do Trem, mais tarde Anita Garibaldi e nos dias atuais Praça Clóvis Beviláqua.
Rápidas adaptações foram procedidas no velho Casarão, depósito da tropa de linha (o Exército do Império), arsenal de guerra, conhecido pelo nome de Casa do Trem. Edificou-se o pavilhão da frente com dois andares e largo portão com arcos altaneiros. Arquitetura imponente da época.

Está é a origem do Casarão Vermelho. O vertiginoso crescimento de São Paulo exigia sempre melhoramentos em todos os seus setores administrativos. E o Casarão Vermelho, da rua do Trem, não podia fugir a esta contingência do progresso.

E foi crescendo. Várias desapropriações alargaram os limites do velho quartel. E a 19 de Março de 1895, na Capital da República, lavra-se a escritura de compra, pelo Governo do nosso Estado, da propriedade ocupada pelo Corpo de Bombeiros, que por haver pertencido ao Exército, era próprio do Governo Federal.
Em 1912 levantava-se, no flanco direito do quartel, um grande pavilhão que deveria fazer parte do conjunto arquitetônico da sede da majestosa obra em andamento. Ao término do ano 1935, a tropa se reunia para a inauguração de um novo Edifício, nos fundos, onde deveria funcionar o Comando e suas repartições auxiliares.
Lá um belo dia (ou um triste dia), em 1948, a avalanche do progresso perturbou a vida dos bombeiros: Os homens da Prefeitura chegam, munidos de máquinas e ferramentas e cortam o frontespicio do quartel. E, então, a Praça Clóvis Beviláqua invade um bom pedaço de seus domínios.
O vetusto arco e velho portão, que, em outros tempos, adoraram arquitetonicamente a nossa Capital, desapareceram. Mas o quartel continuou, dando ao povo o clima de segurança e de paz em pleno coração da metrópole bandeirante.
Em Outubro de 1967, surge uma empresa com muita gente, operários e engenheiros, manejando máquinas modernas, e põe por terra definitivamente o Casarão Vermelho.

Num humilde "Sursum Corda" os bombeiros se despedem. Para consolo daqueles corações compungidos a empresa promete-lhes um majestoso quartel com dez andares, talvez o mais imponente e confortável do mundo.
Engenheiros e operários, quando a linotipo compõe as páginas de "O Casarão Vermelho", levantam as bases do novo Edifício da Praça Clóvis Beviláqua.

Pena foi o Sr. D. Pedro II não esteja vivo para verificar o cumprimento de suas ordens.

Pesquisador: Sgt Eduardo Marques de Magalhães                             

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