O CASO DA CHIBATA
Em 1942, aproximou-se do portão do Quartel do Corpo de Bombeiros (Anita Garibaldi), um velhote alto, peito empolado e fez morena. Era mesmo o tipo imaginado. Dia de domingo ou de feriado, pois não havia expediente, e por isso, o quartel estava em silêncio.
O cavalheiro de porte elegante e nariz aquilino, deteve-se alguns instantes defronte ao quartel, e a sentinela, vendo-o ali, perguntou-lhe: "O cavalheiro amigo já foi atendido?".
Não, Sr., retorquiu o nobre ancião, nada tenho a tratar aqui nesta casa. Prosseguindo: Sou um velho colega, disse, esboçando um sorriso. Fui bombeiro aqui em 1895, prosseguiu, e desta casa tenho no âmago de meu coração uma grande saudade. Lembro-me dos dias de minha juventude.
Bem próximo do veterano bombeiro estavamo-nos quase alheio a conversa, e ouvindo suas palavras, não resistimos. Não resistimos de fato o desejo de entrevistar o homem. Pedimos licença, e logo, com o mesmo sorriso, aquele tipo simpático voltou-se para nós.
Perguntamos-lhe qual a razão da sua desistência da profissão de bombeiro, e porque tantos anos passara ausente do quartel. Ele respondeu com franqueza mas em tom reservado, encerrando a frase com expressiva reticência.
E continuou depois de certo intervalo: Eu tenho daqui uma grande saudade, mas ao mesmo tempo, trago no fundo da minha alma um grande sentimento, um amargor que jamais consegui esquecer. Eu gostaria, continuou o veterano soldado, de lançar para sempre no olvido dos tempos essa amargura que me dói ainda hoje.
Antes que lhe perguntassem o motivo de grande mágoa que lhe feria o coração, o velho e respeitável bombeiro explicou o caso.
Eu estava de prontidão, disse-nos, para incêndio, um dia (isso em 1895, quase no fim do ano), e comigo um rapaz, meu grande amigo. Achava-se ele de sentinela, guardando o material rodante da corporação.
Acontece que, nesse dia, logo cedo, o comandante (Graccho Pinto da Gama) manda o cocheiro atrelar os animais para o seu carro. E a ordem fora cumprida sem demora.
O carro sai, conduzindo o comandante.
Por uma desgraça, acidente comum, imprevisível, salta do eixo uma das rodas. O carro, tombado, arremessa o comandante ao solo.
O Homem enfureceu-se! Procurou imediatamente um fio terra para nele lançar a sua forte corrente de diabólica raiva.
E encontrou. A sentinela do material foi a vítima imolada para o sacrifico de um dasabafamento colérico.
O pobre soldado, então, sofreu o castigo expiatório, fora a vítima que sofreu os efeitos brutais e satânicos da cólera de morte que dilacerava os nervos do comandante Graccho.
Ordenou fosse a sentinela posta no xadrez (o meu amigo e estimado colega, disse ao velho, quase derramando lágrimas). Em seguida mandou formar a tropa no Páteo do Quartel.
Consoante o "Cerimonial" da época, ordenou que o preso fosse colocado no meio do quadrado, sendo nele aplicada 50 chibatadas.
Encerrando a narrativa, o nosso entrevistado anônimo (cujo nome não conseguimos saber), disse-nos: "Foi por isso, meu amigo, que eu aqui jamais voltei. Parti para sempre, e depois desse dia, hoje é a primeira vez que ponho os meus pés nos humbrais deste quartel.
Pesquisador: Sgt Eduardo Marques de Magalhães
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