O PRISIONEIRO DO ABISMO

O desastre de "Rocinha", hoje, amanhã e por tempo muito distante, será o assunto de todas as palestras, sugerindo mil idéias que praticadas teriam salvo a vida do desventurado Cândido Isaías, o prisioneiro do abismo, o sepultado vivo, a incompreensível estrutura física que resistiu durante seis dias  e seis noites a um martírio sem precedente, enterrado a 27 metros de profundidade em um precipício horrível.

A cisterna maldita ficava, a pouco mais ou menos dois quilômetros da extração de Rocinha, município de Jundiaí, em terreno acidentado, aberta no declive de uma espécie de colina. A sua profundidade era de 27 metrôs, precisamente por metro e dez centímetros de diametro nas bordas superiores. A medida que a escavação se aprofundava, as dimensões do círculo diminuiam sensivelmente, em forma de funil, de modo que, no ápice, o poço era bem mais estreito.

Quando se pensa em sorte horrível que a fatalidade destinou ao infeliz cabouqueiro, Cândido Isaías, tem se calafrios de pavor. Qual não será, então, a impressão que domina os denodados bombeiros que realizaram prodígios de abnegação, impotentes, mesmo assim, para tirá-lo do atroz suplício.

Quem não esteve em Rocinha, quem não "viu" o que ali se passou durante seis dias, e só sabe, por alto, de alguma coisa, por ouvir falar,  não está em condições de expender juízo, e faz mal, por isso, em comentar desfavorávelmente as tentativas empregadas para salvar o sepultado vivo. O que era humanamente possível fazer foi feito. 

Mais do que isso: na cisterna da morte, cuja história por muitos se há de contar como um exemplo alucinante do quanto um homem pode sofrer no moral e no físico, em plena posse das suas faculdades, fez-se mais do que era lícito esperar-te, praticaram-se verdadeiros atos de heroísmo por parte das turmas de bombeiros, as quais deram provas repetidas de um empolgante desapego a vida.

Está fatalidade se deu numa quarta feira(18/07/1916), quando Cândido procedia ao rebaixamento de uma cisterna de aproximadamente 27 metros de profundidade, e nessa cisterna havia um revestimento de tijolos até a altura de dez metros, e por volta das 16 horas daquele dia, desmoronou parte do revestimento, que caiu sobre o pobre homem, soterrando-o até os ombros.
Nas primeiras horas desta ocorrência, a tentativa de socorro, foi feita por populares e quase no final da tarde foi que o sub-delegado de Rocinha fez o pedido via telegrama, junto a Secretária de Segurança e foram enviados dois bombeiros de Campinas e dois de São Paulo e posteriormente foram enviados mais 8 bombeiros comandados pelo Capitão Alffonso Luiz Cianciulli.

De todos os bombeiros, oficiais e subalternos, que se revezaram e tomaram parte nesta ocorrência da Rocinha, só quatro não desceram até ao fundo do abismo, de onde em seis dias e seis noites o desventurado Cândido esperou em vão sair. Não desceram unicamente, porque não tiveram para isso oportunidade. E descer até ao termo lodacento da cisterna corresponde nada menos do que arriscar ingloriamente a vida na mais horrível das mortes.

Um dos bombeiros que desceu até o fundo do poço comentou, que já tinha afrontado apavorantes perigos em inúmeros incêndios, já viu aberto a seus pés abismos de fogo, cujas chamas lhe lambiam o corpo e pareciam garras que procuravam arrastar-lhe para a fornalha. Mas nunca se sentiu tão perto da morte, nunca a morte lhe infundiu tanto horror, como no infernal poço.

Dentre os bombeiros que mais se distinguiram nos trabalhos do salvamento do poceiro, merece menção especial o sargento Eliéser Arguilez(capital), que durante a sua permanência em Rocinha, no local da trágica ocorrência, desceu três vezes até o fundo do poço. Na primeira vez desceu sozinho e pouco demorou, no fundo estava Candido de braços cruzados, tendo o corpo até acima dos braços  coberto de lodo, sem duvida, o que mais provas deu de abnegada coragem e os bombeiros, n°17 Lázaro Ribas de Avila(Campinas), que se achava sempre pronto para as mais arriscadas tentativas e o bombeiro João Batista(Campinas).

Nessa luta, foram as turmas de bombeiros substituidas diariamente, sem que um resultado apreciável coroasse os esforços empregados, sendo por vezes o prisioneiro do poço fatal, reanimado com auxílio de injeções de óleo canforado e cafeína. 

Ao alvorecer do domingo já os bombeiros extenuados, foram substituídos no serviço de desentulho, pelos poceiros Leopoldo Jacinto de Paula e José Joaquim. Esses dois homens trabalhando conjuntamente no fundo do poço conseguiram descobrir Cândido Isaías até aos joelhos, para pouco depois vê-lo de novo atolado até ao peito.

Devido ao risco de mais desmoronamentos, Cândido Isaías, ficou sozinho no fundo do poço, durante toda a tarde, noite e manhã de segunda feira e ninguém mais devia descer a não ser para sacrificar a própria vida.

Na segunda feira após outras tentativas de iniciativa particular o Dr Francisco Monlevade, inspetor geral da Companhia Paulista, ofereceu os seus serviços e os de seu pessoal, para ir em socorro do infeliz prisioneiro do poço fatal, dentro de uma hora 60 operários, mecânicos, caldeireiros, pedreiros e turma da conserva, se juntaram as equipes de socorro.

Executados com a calma precisa os trabalhos,  distribuídos os operários na construção de um cimbre, na montagem de moitões, na iluminação do local, o heroísmo do brasileiro manifestou-se de uma maneira prodigiosa, desceu ao fundo do precipício o operário Pedro Domingues, que soltou Cândido Isaías, das cordas.

A noite uma turma de bombeiros que chagava da capital, organizou uma iluminação elétrica no interior do poço, e desceram então os operários Victor Rafael e Alarico Benedito de Souza, que com denodo incrível conservaram-se por espaço de 4 horas, no desentulho, conseguindo esgotar a água que tocava o queixo do prisioneiro e em seguida retiraram todo o lodo.

As 20 horas, estavam retirando tijolos e pouco depois descobriram a perna de Cândido, entravada por uma tábua. Serrada, esta, um sorriso velado pairou nos lábios do poceiro, sendo ainda retirado o enxadão e a colher de pedreiro com que Cândido trabalhava.

Nunca, a esperança encheu tanto o coração humano como nesse momento, o do infeliz. Mais algumas horas e Cândido estaria liberto. Ele próprio auxiliava aos seus salvadores proseava e dizia-se livre do suplício.
Quando os operários saiam do poço para avisar do feliz sucesso aos seus superiores, Cândido Isaías, pendeu a cabeça para a frente  e Victor Rafael, recebeu seu último suspiro.

Eram 22 horas, Vitor levantou o corpo, encostou-o a uma das paredes e subiu para anunciar que todo o sacrifício havia sido inútil.
O bombeiro Ribas, desceu no poço, para amarrar o corpo de Cândido, afim de ser retirado, e no esforço de subir o corpo, acabou  ocorrendo um desmoronamento, e o cinturão que cingia o corpo arrebentou, mais duas tentativas foram feitas e os desmoronamentos continuavam e da terceira vez o corpo ficou sepultado pelos escombros.

Cândido Isaías era natural de Rocinha e o seu verdadeiro nome era Cândido Felizardo Ferraz, como era conhecido.

texto publicado no jornal A Gazeta de 25 de julho de 1916.


Pesquisador: Sgt Eduardo Marques de Magalhães 

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