QUARTEIS DA CAPITAL - QUARTEL DE LINHA

Ao ser elevado a predicamento de cidade, em 11 de junho de 1711, o núcleo existente com o nome de São Paulo, desde 25 de janeiro de 1554, não havia nele prédio algum, que merecesse o nome de quartel.

Nessa época existia na povoação, sede da capitania, apenas um grupo insignificante de homens armados que constituia a guarda da pessoa do capitão general. Esse pugilo de militares alojava-se na própria residência do Governador. A tropa da linha, quando em trânsito para as fronteiras, aquartelava-se em armazéns, e barracões, improvisados ou em simples ranchos de palha, que ofereciam insuficiente abrigo e eram totalmente desprovidos de qualquer conforto.
                        "Quartel de Linha"

Somente 64 anos depois em 1775, foi dado início a construção de um quartel destinado a tropa colonial. Havia sido criado nesse ano, pelo governo da metrópole, o corpo de voluntários reais, composto de regimentos de infantaria e cavalaria. Como se tratava de um corpo de elite, ostentando inusitado garbo e brilhante uniforme, afluiam em grande numero  os indivíduos para nele se engajarem. Não podiam esses voluntários ser imediatamente acolhidos e incorporados, por não existirem armazéns ou quartéis nem enfermarias disponíveis.

Não somente por isso, mas também porque São Paulo, já nessa época era o centro militar obrigado, e de onde partiam as tropas em socorro das capitanias das fronteiras, quase sempre invadidas e taladas, o governo precisava cuidar, sem perda de tempo, da construção de quartéis e de hospitais militares, que pudessem receber e abrigar as tropas que se tornavam numerosas.
Existiam algumas casas alugadas que serviam de depósito de materiais bélicos, casernas e uma pequena enfermaria particular que era denominada "Misericórdia".
Essa enfermaria porém, pela sua exiguidade não comportava senão um número muito reduzido de militares doentes, sendo necessário improvisar outras em casas particulares, que não ofereciam naturalmente nenhum conforto aos enfermos.
Ao capitão general Martins Lopes Lobo Saldanha, havia o bispo Fr. Manuel da Ressurreição, doado em, 1775 um terreno situado na parte mais alta da cidade, onde já existia uma construção em início. Lembrou-se ele então de aproveitar esse terreno para construir um quartel, visto a isso se prestar magnificamente, devido a sua localização, a cavaleiro da cidade. Esse terreno é o mesmo onde se acha o velho quartel , na rua Onze de Agosto.
Tomada essa resolução, representou o capitão general a S.M. , sobre a urgência que tinha a cidade de São Paulo de possuir um quartel digno desse nome e uma enfermaria militar que oferecesse conforto aos soldados  nele recolhidos e propunha os meios e modos de se poderem fazer com pouca despesa da Real Fazenda.
Pondo justamente, em execução essa proposta, dirigiu em 10 de novembro de 1975, um ofício a S.M. , no qual lembrava o alvitre de se convocarem os escravos de algumas fazendas que haviam sido confiscadas na capitania de São Paulo, aos proprietários denominados jesuítas, para com poucos mestres que os dirigissem socarem as paredes de taipa de que eram formadas nesta cidade todas as casas por falta de pedras, em cujo extração pouco ou nada se perdia porque, achava que também pouco ou nada tinham rendido as mesmas fazendas, totalmente destruídas.

Com esses escravos, entre os quais havia alguns carpinteiros, dizia ele, entrando em detalhes sobre a construção projetada, seriam feitos os cortes das madeiras que não custariam mais que a condução e contratariam mais alguns carpinteiros para lavrarem-se e fazerem-se as obras.
Quanto as ferragens e pregos que em São Paulo eram excessivamente caros seriam adquiridos em Lisboa.
Mandar-se-ia fazer telhas pelos mesmos escravos das fazendas confiscadas.
Para o custeio das obras, que o mesmo capitão general avaliava em oito ou dez mil cruzados, achava suficiente a importância que  se obtivesse com a venda dos bens deixados pelos jesuítas proscritos.

No ano seguinte, conseguidos os meios propostos, foi dado início a construção do quartel, cujo ala direita ficou concluída em 1790, sob o governo do então capitão general Bernardo José de Lorena. Somente muitos anos depois, 20 aproximadamente, foi socada a última camada de terra da grossa taipa e colocada a última trave do teto. O vasto edifício ocupava toda a quadra limitada pelas ruas Anita Garibaldi, Teatro, Onze de Agosto e Travessa do Quartel.
Esse vetusto casarão de feição antiquada e colonial, reclama urgentemente a ação da picareta demolidora das obras públicas, para dar lugar a um elegante palácio que faça honra ao adiantamento e ao progresso assombroso da capital paulista.
A ação do tempo a muito que se encarregou de fazê-lo ruir pouco a pouco. A parte Sul do edifício já havia desaparecido a mais de dez anos e o restante, mau grado os esforços do atual comandante do segundo batalhão, nele aquartelado, que se empenha pela sua conservação, não se manterá por muito tempo em pé.

Já em 1887, está antiquissima construção se achava em mau estado. O relatório apresentado pelo Visconde de Parnaíba, presidente da Província, dizia que todo  e qualquer reparo seria feito sem vantagem alguma e que a reforma deveria ser radical.
Lembrava ele, nesse mesmo relatório, a assembleia, que lhe desse autorização para a venda do velho edifício, para com o produto construir um novo com todas as acomodações necessárias a um quartel moderno. 
A câmara concedeu a autorização pedida, porém não chegou a alcançar aprovação do senado, ficando assim burlado o plano de possuir a cidade um edifício apropriado ao seu fim e continuando o velho quartel a ameaçar ruína e a dispensar os piores cômodos aos continentes de linha nele aquartelados, além do depor de modo sensível contra o grau de adiantamento da nossa culta capital e de nossa cara província, dizia ele no citado relatório.

Os urbanos tiveram o seu primeiro quartel em 1873, na rua das Flores, esquina da rua de Santa Tereza, edificio de sobrado, em cujos altos funcionava a repartição da polícia. Transferiu-se depois para um prédio da rua do Quartel e decorridos dez anos, para um outro na rua do Carmo, próximo ao largo do Palácio, onde permaneceu até sua extinção em 1891.
Os bombeiros aquartelaram-se em 1880, por ocasião de sua criação em umas exiguas dependências do Quartel de Urbanos, na rua do Quartel, mudando-se depois, em 1886 para o prédio adaptado na rua do Trem.

Obs: estas informações foram tiradas do trabalho apresentado ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, pelo Major Pedro Dias de Campos.

Pesquisador: Sgt Eduardo Marques de Magalhães           

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