QUARTEL DA LEGIÃO - GUARDA URANA - SEÇÃO DE BOMBEIROS

                   QUARTEL DA LEGIÃO

Em 14 de janeiro de 1775, Portugal criou a Legião de Voluntários Reais da Capitania de São Paulo, também chamada Legião de Tropas Ligeiras da Capitania de São Paulo ou, mais simplesmente, Legião de São Paulo, destinada à defesa do Sul do Brasil.

Comandada por um oficial general ou superior, tinha Estado-Maior, tropas das Armas da época, Infantaria, Cavalaria e Artilharia, todos os Serviços de Apoio, e uma organização semelhante às das atuais Brigadas de Infantaria. Seu efetivo de 1.600 homens, enorme para a época, comparado com a população mobilizável, correspondia a várias Divisões de Exército atuais. Enquanto existiu como um todo antes de ser dissolvida, a Legião sempre teve importante participação nas campanhas sulinas até a Independência.

Entre os grandes soldados que serviram em suas fileiras deve sempre ser lembrado o gaúcho Manoel Luiz Osório, Marechal do Exército, Marques do Herval, Senador do Império, Patrono da Arma de Cavalaria etc. Osório, uma das figuras mais brilhantes e simpáticas da nossa História, começou sua carreira assentando praça, aos quinze anos de idade como soldado voluntário, na Cavalaria da Legião de São Paulo.

Sediada em tempo de paz na cidade de São Paulo, a Legião teve sérias dificuldades para ser organizada. Não existia nenhum quartel na cidade; os infantes de Santos ficavam alojados no Palácio do Governo (prédio do antigo colégio confiscado aos jesuítas após sua expulsão de Portugal e Domínios em 1759), em casas alugadas ou aboletados em residências particulares.

Oficiais do Real Corpo de Engenheiros do Exército de Portugal começaram a construir instalações para a Legião na cidade, inclusive em três terrenos vizinhos no centro urbano. No mais central foi construído o Quartel da Legião, enorme aquartelamento ocupando todo o perímetro de uma quadra e com um grande pátio interno arborizado (no terreno do antigo quartel existe hoje o majestoso Palácio da Justiça).
Ao ser solenemente inaugurado em 4 de outubro de 1790, após catorze longos anos de construção, o Quartel da Legião era delimitado a oeste pela Rua do Quartel (começava no Quartel, seguia para o norte onde seu trecho final tinha o nome de Beco dos Minas, por ser habitado pelos negros minas; chamou-se depois Onze de Agosto (tendo desaparecido em sua maior extensão); ao sul por um trecho da Rua Tabatinguera (este trecho chamou-se depois Beco do Quartel e Rua do Teatro (hoje desaparecido); a leste pela Rua Curva (depois Rua Detrás do Quartel, Rua do Trem e Rua Anita Garibaldi, hoje desaparecida em sua maior extensão) e ao norte pela Travessa do Quartel, hoje desaparecida. 
Como foi dito acima, havia dois outros terrenos vizinhos ao Quartel da Legião. Um ficava na Rua da Tabatinguera, em frente ao lado sul do quartel, confrontava com propriedades de particulares e do Convento de São Bento e nele havia dependências da Legião.
O terceiro terreno ocupado pela Legião ficava na Rua Curva e junto a um chafariz público instalado em 1774. Aquele terreno é hoje parte da área onde está o Quartel Central do Corpo de Bombeiros. Era de forma irregular, medindo vinte e quatro braças de frente para a Rua Curva e trinta e uma braças de fundo na maior extensão; cercado por muros de taipa cobertos de capim em vez de telhas, confrontava com propriedades particulares e, inclusive, com imóveis do Convento do Carmo e que faziam frente para a Rua das Flores (atual Silveira Martins). No interior do terreno havia a Casa de Recreio com dois pavimentos. Salvo alguma mudança semántica, aquela Casa de Recreio deve ter sido o primeiro clube social de militares na cidade de São Paulo.

O chafariz da Rua Curva com o decorrer do tempo, passou a ser chamado oficialmente Chafariz do Quartel ou Chafariz do Trem. Como se sabe, nos chafarizes e fontes públicas de outrora, frequentados por grande número de pessoas de condições modestas, na maioría mulheres, ocorriam frequentes desordens e brigas. O Chafariz do Quartel, por motivo óbvios, deve ter sido um dos mais tranquilos da cidade de outrora.

Pelo que se sabe até agora, foi o primeiro serviço de utilidade pública a existir no terreno do Quartel Central dos Bombeiros. Seu histórico consta do livro "Fontes e Chafarizes de São Paulo", de autoria do Dr. Byron Gaspar e publicado em 1970 pela Secretaria de Cultura do Estado.

                          "GUARDA URBANA"

O policiamento da cidade, de modo geral, se desenvolveu e se aperfeiçoou a partir do último quartel do século dezenove, como resultado aliás de medidas que se impunham em consequência do crescimento de sua área e de sua população. 

Em 1873 considerava-se que a cidade estava mal policiada. E o chefe de policia lembrava que era urgente criar se uma seção de companhia, com efetivo de quarenta ou cinquenta praças, a fim de se encarregar exclusivamente do policiamento da capital.

No ano seguinte essa autoridade justificava sua idéia lembrando o extraordinário desenvolvimento industrial de São Paulo e o aumento de sua população em conseqüência das construções ferroviárias e da chegada contínua de imigrantes europeus. 

A criação de uma seção de companhia foi autorizada em 1875. Chamava-se Guarda Urbana e foi distribuida por quatro postos policiais, instalados em zonas convenientes das freguesias paulistanas. Cada posto dispunha de um contingente de dez praças, e as restantes ficavam na sede do comando central. 
Dois anos depois seu efetivo foi elevado para cento e vinte praças. Os elementos dessa Guarda Urbana foram apelidados de "Morcegos" pelo povo. E ainda recentemente se ouvia cantar, em certas rodas populares da cidade, uma velha modinha em que esses milicianos eram visados pelo humorismo dos cantadores, através de uma letra assim:

- Sou Guarda Urbano, pelas ruas vago,
- de espada à cinta, por não ter emprego.
- E os transeuntes, quando eu vou passando, 
- dizem rosnando: sai daqui, morcego.

Essa letra tem sido atribuida ao poeta Alvares de Azevedo. Mas como o autor da Noite na Taverna morrera mais de vinte anos antes da organização da guarda dos "morcegos", se esses versos eram dele é claro que se referiam a policiais de outra época, cujos uniformes talvez se prestassem também aquela comparação.

Em 1878-1879 o Corpo Policial Permanente teve seu efetivo elevado para mil homens, ficando ele na realidade porém com oitocentos e dez, aumentados dois anos depois para novecentos e oitenta e sete. 
                     "SEÇÃO DE BOMBEIROS"

Eram os elementos do Corpo Policial Permanente, ainda nesse tempo, os encarregados da luta contra os incêndios. A situação era exposta à Assembléia Provincial, por Laurindo de Brito: A cada incêndio, que felizmente rara vez alarma a população desta capital, mas para que já era tempo de estarmos preparados, atento o aumento de fogos, o acúmulo de habitantes e a importância dos prédios, ouvia-se um clamor geral contra a imprevisão que deixava, por falta de máquinas e aparelhos necessários, a cidade exposta à devastação pelo incêndio, quando este tomasse proporções que exigissem o emprego de máquinas mais potentes que as bombas de jardim e deslocação de água mais prontamente do que pelos baldes dos aguadeiros. 

Nesse ano de 1880, em que Laurindo de Brito escrevia isso, verificou-se na cidade mais um incêndio de proporções enormes: o que destruiu a maior parte do arquivo da Academia de Direito e a capela-mor da igreja contigua a ele. Ao toque de rebate de todas as igrejas escreveu Vampré acudiu muita gente às três horas da madrugada. 

E apareceram também o Corpo de Urbanos e o de Permanentes e até as tropas de linha. Lutaram todos contra as chamas durante largo tempo, só conseguindo acabar com o fogo às seis horas da manhã. 

"A intensidade do fogo contou então o jornal A Província de São Paulo - a falta de pessoal amestrado em serviços de extinção de incêndios, a ausência completa de instrumentos necessários em tais casos, como bombas, baldes, machados, etc., a deficiência de água nas primeiras horas da catástrofe, eram terríveis prenúncios de que não se salvariam nem o edifício da Faculdade, nem a sua biblioteca, nem a igreja da Ordem Terceira dos Franciscanos, edificios esses todos contiguos e inteiramente ligados entre si". 

Essa ocorrência parece ter sido decisiva no sentido de que se pensasse em uma organização especialmente treinada e equipada para extinguir incêndios. Se bem que alguns anos antes em 1874 - no governo de João Teodoro Xavier, tivesse sido aprovada por lei a aquisição de material destinado a combater incêndios e criada uma turma de dez homens, anexa à Companhia de Urbanos, incluindo algumas ex-praças do corpo de Bombeiros da Corte. 
Foi no entanto no ano de 1880 que se organizou a Seção de Bombeiros anexa à Companhia de Urbanos (depois Guarda Civica), com sede na antiga rua do Quartel e composta de dois inferiores e dezoito praças.

Para fazer sua instrução veio expressamente do Rio um comandante do Corpo de Bombeiros. O material dessa seção de bombeiros se compunha de duas bombas químicas abafadoras, para socorro pronto nos pequenos incêndios; duas bombas francesas chamadas "de tina", com força de projeção suficiente para mandar água à altura de um edificio de dois andares; e uma bomba vienense "de tipo aperfeiçoado", destinada aos grandes incêndios pela facilidade com que podia ser alimentada em qualquer encanamento de água.

Em 1882. quando ocorreu o incêndio do Hotel de Espanha, contou Afonso A. de Freitas que muitos populares de certo movidos pela força do hábito, se não pela curiosidade acorreram ao local, quando ouviram o alarme desesperado dos sinos das igrejas. Não precisaram mais de lutar contra o fogo, porém, e ficaram simplesmente assistindo ao trabalho dos bombeiros. 

Estes conseguiram então evitar a destruição do edificio, pois puderam contar com a abundância de água que jorrava dos encanamentos novos da Cantareira. 
Já em 1885 segundo as indicações que se encontram no Almanaque da Província, de Seckler, para aquele ano - a Seção de Bombeiros tinha cinco bombas, sendo uma puxada por animais; dois extintores portáteis; uma escada prolongável; duas escadas de gancho; três pipas para condução de água, montadas em carroças; um paraquedas e um saco salva-vidas. 
Todo um aparelhamento que fazia esquecer os baldes dos aguadeiros e os potes das negras de outros tempos. Naquele ano recebeu ainda a organização material mais moderno do Rio, para melhoria dos seus serviços. E como o portão da Estação Central dos Urbanos não pudesse dar passagem aos carros com seus equipamentos, ela se mudou para um prédio da rua do Trem (Anita Garibaldi) onde se construíram os galpões necessários à guarda do material. 
Entre esse material, uma poderosa bomba a vapor Greenwich, a primeira que a cidade conheceu. Mas os sinais de fogo ainda eram dados pelas igrejas que estivessem mais perto do local. E as do centro deviam acusar os que fossem dados pelas dos arrabaldes. Esses sinais precisavam de ser feitos com muita precaução aconselhava o almanaque citado de modo que as badaladas que indicassem os distritos não fossem confundidas com as do rebate. Era preciso que se desse uma badalada e depois de trinta segundos, mais ou menos, o rebate, devendo este não exceder de quinze badaladas aceleradas "e assim sucessivamente até quatro ou cinco repetições".
Uma lei de 1888 elevou o efetivo da Seção de Bombeiros para trinta praças, um primeiro e um segundo sargentos. Três anos depois foi o Corpo de Bombeiros organizado com duas companhias, uma com o efetivo de 122 homens e outra com o de 118. 

Criaram-se então duas estações auxiliares, a do Norte, para atender aos avisos de incêndios do bairro do Brás e adjacências, já então industrializados e a do Oeste, atendendo aos bairros da Barra Funda, Campos Elíseos e outras zonas dessa parte da cidade. 
              Bomba a Vapor Greenwich

Na mesma ocasião foi autorizada a compra de outra bomba a vapor tipo Greenwich, dos fabricantes Merrywheater & Sons; de três bombas manuais Metropolitan: de um carro para transporte de mangueiras; de quatro mil e duzentos metros de mangueiras: de vinte e quatro derivantes diversos; de três bombas portáteis e de mais utensílios necessários, como abraçadeiras para mangueiras, escadas de assalto, machadinhas e machado picaretas. 
                      Estação do Norte
                      Estação D'Oeste 

Depois de 1895 foram inauguradas as sub-estações do Norte e do Oeste, a que já se fez referência. E então foram instaladas em diferentes bairros da cidade cinquenta caixas automáticas, ligadas diretamente à Estação Central adotando-se o sistema telegráfico Morse, com sub-estação também na Repartição de Águas. Mas só em 1910 seria substituído o material a tração animal pelo automóvel.

Quanto à Guarda Urbana, seu contingente foi elevado em 1886 para cento e cinqüenta praças, mas mesmo assim era preciso que o Corpo Policial Permanente fornecesse contingentes para o serviço de ronda, que se fazia nas freguesias do Brás e da Ponte Grande, ao mesmo tempo que uma guarnição do Exército se encarregava de patrulhar, com praças de cavalaria, Santa Ifigênia e outros bairros da mesma área da cidade. Mas ainda em 1890 o policiamento era considerado insuficiente, mormente à noite, nas ruas onde havia poucos bicos de gás. 

Nesse ano, aliás, teve a Guarda Urbana seu efetivo aumentado para trezentos e quarenta homens, e em 1891 para quatro centos e sessenta e um, destinados ao policiamento da cidade, e anexada a ela uma seção de cavalaria, com sessenta praças, encarregada da ronda dos subúrbios. 

Entretanto no ano seguinte extinguiu-se a chamada Força Policial Urbana, que compreendia a Companhia de Urbanos e a Seção de Cavalaria, suprimindo-se também o Corpo Policial Permanente. Em substituição, organizaram-se cinco corpos militares de polícia e uma companhia de cavalaria, passando o corpo policial urbano a se denominar Quinto Corpo Militar de Polícia. 
As organizações policiais se aperfeiçoaram ainda em material e em preparo no começo do século vinte. Em 1911 substituiu-se o material fabricado na Alemanha e instalado em 1895 para o Corpo de Bombeiros (caixas automáticas e serviço telegráfico) instalando-se cento e sessenta caixas tipo Gamwell, abrangendo uma vasta área urbana tendo por limites os bairros de Vila Prudente, Penha, Santana, Lapa, Pinheiros, Vila Maria e Ipiranga.

Fontes: 
- São Floriano (Boletim informativo para o público interno), ano III Agosto de 1989, n° 16;
- Livro Histórias e Tradições da Cidade de São Paulo - Volume III.

Pesquisador: Sgt Eduardo Marques de Magalhães 

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