REBELIÃO DAS LÁGRIMAS
13/01/1961 - Em 141 anos, o Corpo de Bombeiros, com grandes serviços prestados e gozando das simpatias populares nunca se rebelara. Diziam os líderes do movimento que a greve era uma imposição dos estômagos vazios, não dos soldados, mas de suas famílias. O desespero os assaltou ao ser rejeitada a proposição que concedia aos militares paridade com a Polícia Civil. Veio então a greve que ninguém esperava, dia 13 de 1961, às 08:30 da manhã anunciada por uma bandeira negra, colocada pelo "Cabo Borges",(pai do Ariovaldo Borges De Oliveira Filho)no topo de uma escada Magirus.
O ato marcava o início de um movimento de indisciplina (o Corpo de Bombeiros pertencia à Força Pública do Estado) que chegaria a provocar uma marcha sobre o Palácio do Governo, na manhã do dia seguinte. Ao substituirem o tradicional pavilhão vermelho da Corporação por uma bandeira negra, os soldados do fogo deflagavam o primeiro movimento de insubordinação em toda a existência do Corpo de Bombeiros.
Estamos passando fome, estamos em greve!
A partir desse instante, todos os chamados para o Quartel Geral eram respondidos com estas palavras: - "Por motivos alheios à nossa vontade não estamos atendendo ao público. Queira dirigir-se ao Palácio do Governo".
O principal foco do movimento - Quartel Geral dos Bombeiros, na praça Clóvis Bevilaqua, passou a ser o centro de todas as atenções. Os soldados do fogo (todos integrantes da Corporação) permaneciam em sua sede, e uma imensa multidão se aglomerava na praça, na expectativa dos acontecimentos. Os oficiais rebeldes esperavam, a qualquer instante, a chegada de uma tropa de choque da Força Pública, com ordem para pôr fim à situação."
"Rendição dos Bombeiros"
As tropas do Exército já estavam dispostas na frente do Corpo de Bombeiros. Eram apontados para o edifício 4 metralhadoras pesadas e um canhão anticarros, Soldados dispunham-se ao longo dos muros do Quartel.
Entendimentos entre o general Franco Ferreira e o 1° Tenente Ernani Benedito Tolosa se traduzem no hasteamento da bandeira vermelha da corporação no mastro do Quartel. Os panos negros, sinal de luto, são retirados. O general aperta a mão do Tenente e vai-se. Parece encerrada a primeira fase da ocupação do Quartel. A rendição dos bombeiros revoltados está quase consumada. O novo comandante manda tocar os toques de "preparar para partir", e as numerosas viaturas no patio tem seus motores e sirenes ligados. Os bombeiros tem a ordem de seguir para suas zonas, localizadas nos bairros da cidade.
Mas a situação está longe de estar resolvida. Soldados e Oficiais, inconformados com as ordens que recebem e que representam o fim do movimento, dão sinais de intenso desespero. Vários choram, outros gritam para fazer-se ouvir acima das sirenes. A maioria dos bombeiros aparenta obediência.
Mas a tropa do Exército, de armas embaladas na frente do Quartel, e a rigidez do cordão aumentam sua hesitação. Tudo depende do primeiro carro, que bloqueia a saída do Quartel. O motorista vai e volta, por entre os gritos dos companheiros, que sobem no carro, depois descem, e procuram uma atitude definitiva.
Finalmente, um Oficial do Corpo de Bombeiros decide ir ao primeiro carro e toma assento no banco dianteiro. Chora copiosamente. A viatura N° 318 deixa o local e dirige-se para sua sede na zona periférica. A crise parece resolvida. O segundo carro, porém não pode partir porque lhe falta uma peça no motor, retirada propositadamente. Um Tenente grita: "Podem atirar. Nós somos Soldados de brio, Não estamos desobedecendo ordens. Eles não podem fazer isso conosco", abre a camisa e desnuda o peito em sinal de desafio.
Nessa altura, é grande o numero de populares postados em frente ao Quartel. O segundo carro está pronto. Seu motorista liga o motor. Alguns Soldados, porém, sentam-se ou deitam-se diante das rodas da viatura. Outros procuram remove-los, mas a ideia contagia vários bombeiros. Os que estavam sobre a viatura descem. O carro não vai sair mais. Todos os bombeiros descem de seus carros. As sirenes se calam. Um silêncio cheio de tensão se faz sentir. Chega o momento mais crítico da operação. Como os bombeiros não saem, Soldados do Exército assentam em frente ao portão uma metralhadora pesada ponto 50. As munições são distribuídas.
Um Oficial do Corpo de Bombeiros pede ao corneteiro que execute o toque funebre. O grupo de jornalistas colocado entre os Soldados e os bombeiros começa a se desfazer rapidamente. Os praças do Exército estão visivelmente nervosos.
O novo Comandante do Corpo de Bombeiros com uma intervenção feliz, salva a situação. Sai do Quartel e ordena que as tropas do Exército deixem a frente da corporação. As tropas se deslocam para mais longe, ao lado do Palácio da Justiça.
Os bombeiros ouvem as palavras de seus Tenentes e de seu novo comandante, reunidos no pátio do Quartel. Logo depois, gritos anunciam uma decisão comum.
O Corpo de Bombeiros retira-se de sua sede. Apelam para o Coronel Caetano Figueiredo Lopes. Querem que os acompanhe até o Palácio dos Campos Elíseos. O Comandante recusa e ordena a retirada para os Quartéis distritais. As viaturas deixam o Quartel da Praça Clóvis. Uma a uma, passam entre os populares. Alguns ainda choram. Terminou a sedição na Praça Clóvis Bevilaqua.
As tropas do Exército acham-se nesta altura na Praça João Mendes. Parte da coluna já se afastou há vários minutos. O Oficial em comando estabelece guarda ao Quartel e limita o trânsito na Praça Clóvis Bevilaqua.
Para surpresa de seu novo Comandante e das Forças do Exército, as viaturas do Corpo de Bombeiros, em lugar de se retirarem para as sedes distritais, haviam seguido para o Palácio dos Campos Elísios, pelo percurso os bombeiros acenavam ao povo e faziam soar as sirenes. Chegando no Palácio os bombeiros foram recebidos por dois Generais do Exército e um Major do Corpo de Bombeiros.
O General Costa e Silva, com apenas um bastão, penetrou no grupo dos bombeiros e disse: "Isto é uma baderna. Será dissolvida a bala. Voltem imediatamente para os Quartéis. E repete: Pensem nos seus filhos e nos homens que poderão morrer". O General ordena que os bombeiros voltem a seus carros e avisa que está para chegar a coluna mecanizada do Exército. Um Oficial dos bombeiros ordena que as viaturas sejam abandonadas no local. Os motoristas levam as chaves. Os bombeiros reunem-se em formação militar e abandonam o Palácio.
O General Costa e Silva ordena a seus subordinados que acompanhem os componentes do Corpo de Bombeiros até o Quartel da Praça Clóvis Bevilaqua, presos. Nos minutos seguintes, os bombeiros dirigem-se em marcha militar para a Praça Clóvis; durante todo o percurso cantam o Hino da Corporação.
Ao entrar na Praça Clóvis, cercados pelas tropas do Exército, fazem continência aos Oficiais e rumam para seu Quartel. Na entrada seu novo Comandante ordena que a coluna pare e manda que os Oficiais dêem um passo a frente. E diz: "Os senhores estão presos por haverem cometido o maior ato de insubordinação. Haviam-se comprometido a voltar ao serviço e foram aos Campos Elísios. Sinto muito, sinceramente".
A tropa foi recolhida nos Quartéis em regime de rigorosa prontidão, todos deveriam permanecer nos quartéis e só poderiam sair por pouco tempo em caso de força maior.
Vários Oficiais foram presos por insubordinação e enviados para Grupamentos de Taubaté, de Sorocaba, Capital e Quartéis do Exército na Capital.
Os bombeiros, não suportando a enorme tensão emotiva, ao verem totalmente perdidos seus esforços, choraram copiosamente.
"Foi a Rebelião das Lágrimas"
Pesquisador: Sgt Eduardo Marques de Magalhães
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