SEÇÃO DE BOMBEIROS

O que, pode sobretudo contribuiu para o estabelecimento da Seção de Bombeiros, foi o grande incêndio havido na noite de 15 de fevereiro de 1880 e que consumiu parte do edifício onde ainda hoje funciona a Faculdade de Direito e igreja de São Francisco, destruindo completamente a biblioteca e o arquivo da Faculdade. 

Esse violento incêndio que tantos prejuizos e danos causou, consternou a população inteira de São Paulo, tendo repercutido dolorosamente fora da capital e da Província. 

O adiantado da hora em que foi pelo rondante, pressentido e dado o alarme de incêndio, três horas da manhã, e a falta absoluta de material apropriado, dificultaram muito o trabalho, de extinção. O povo, que correu ao primeiro alarme dado pelos sinos da igreja contigua assim como a polícia, os urbanos, tropas de linha, trabalharam ativamente, mas seus esforços foram quase improficuos para dominar a ação destruidora do fogo. 

As autoridades, uma vez extinto o fogo, procederam no local do sinistro, ás necessárias indagações, chegando á conclusão de que ele fora ateado por mão criminosa.
 
Haviam espargido petróleo em tal quantidade, que, ainda nas estantes da biblioteca da Faculdade e assoalho da sala contigua a igreja, não totalmente consumida, notavam-se manchas produzidas por essa substância inflamável. Numa parte, do edifício poupada pelo fogo foi encontrada uma janela arrombada de fora para dentro e sinais de pisadas no jardim, de pessoa que entrou e saiu. 

No dia seguinte, 16, na Câmara, o ilustrado e operoso deputado dr. Ferreira Braga justificou, na brilhante oracão que abaixo vai transcrita, dois projetos: um para decretar a criação da Seção de Bombeiros e outro para que a província contribuisse com o auxilio de 50 contos para a reconstrução do edifício.

O Sr. Ferreira Braga - A capital da província esta ainda sob a mais dolorosa impressão, pelo acontecimento de que ontem, á noite, foi teatro parte do edifício da Faculdade de Direito e da igreja de São Francisco. O pavoroso incêndio ateado casual ou criminosamente naqueles dois edifícios, constitue uma calamidade público, quer para a província, quer para o país, e nos contrista o espírito.

Não lastimamos tanto a destruição da parte material do edifício da Faculdade de Direito, quanto a do arquivo acadêmico; arquivo há tanto tempo existente e que encerrando preciosidades, era a história viva de tantas gerações, que se tem perdido umas, em a noite escura dos tempos, outras, que constituem as mais fulgidas constelações da pátria, na atualidade; história em um momento sepultada nos destroços fumegantes daquelas ruinas que ali se ficaram a meio pelo denodo de uns, pela bravura de outros que procuravam fazer recuar, circunscrever, extinguir as ondas de fogo, que ameaçavam tudo invadir.

É admirável, Sr. presidente, vergonhoso mesmo, permita-me a franqueza, que em uma cidade tão importante como São Paulo, tão rica quanto populosa, não exista um corpo de bombeiros perfeitamente organizado. Não há cidade ou vila nos Estados Unidos da América que não tenha montado, sempre pronto a voar para onde quer que o incêndio se anuncie um Corpo de Bombeiros. 

Ou tem sido muita confiança na boa estrela desta província, ou indisculpável descuido. Entretanto tem-se gasto grossas somas com o aformoseamento da cidade e não se cura de dar organização regular ao Corpo de Bombeiros, munindo-se a capital do material preciso para extinção de Incêndios.
 
Urge, pois, cuidarmos do futuro, e nesse intento apresento os seguintes projetos: um tratando de habilitar o governo com a quota precisa para manter o Corpo de Bombeiros anexo ao de urbanos; outro para que a província concorra com 50 contos para a reparação da igreja e Faculdade. 

Eis o projeto referente aos bombeiros, aprovado em terceira discussão em 27 do mesmo mês: 
A assembléia legislativa provincial decreta :
Art. 1°.  Fica o governo da província autorizado a organizar desde já uma seção de bombeiros anexa á companhia de urbanos da capital e a fazer aquisição de maquinismos 
próprios para a extinção de Incêndios. 
Art. 2°.  Para essa despesa é o governo autorizado a abrir um crédito de 20 contos. Revogadas as disposições em contrario. 
Paço da assembléia, 16 de feveieiro de 1880. Ferreira Braga. 

Coube ao esforçado presidente da província, dr. Lourindo Abelardo de Brito e ao Chefe de polícia, dr. João Augusto de Padua Fleury, posteriormente desembargador da Relação de Mato Grosso, a glória de terem dado execução inteligente e cabal á lei da Assembléia Legislativa Provincial, sob n° 6, 
publicada em 10 de março de 1880, autorizando a criação de uma Seção de Bombeiros com pessoal próprio, destinada ao serviço de extinção de Incêndios, e autorizando operação de crédito para esse fim até vinte contos de réis.

A seção criada por essa lei compunha-se de um alferes comandante e de 20 praças. 
No intuito de evitar possível confusão em circunstâncias excepcionais, foi dado ás praças e ao comandante da seção, uniforme diferente do usado pelas praças da companhia de urbanos e pelas praças de outras tropas. 
Esse uniforme era igual ao que usava a corporação de bombeiros do Rio. A seção foi organizada com o seguinte material adquirido na Corte, onde também foi feito o alistamento de alguns voluntários, que constituiram a maioria das engajados, pelo zeloso dr. Pádua Fleury, que com notável inteligência e economia para os cofres da Província, desempenhou-se da missão que lhe fora cometida: - 2 bombas tina francesas ; 2 bombas químicas abafadoras; 2 bombas vienenses, uma das quais foi oferecida a província pelo governo imperial, por intermédio do comendador Philadelpho de Souza Castro. 

As bombas chamadas vienense tinham força de projeção suficiente para mandar a água a altura de um prédio de dois andares. Estas bombas prestaram poderoso auxilio pela simplicidade de seu sistema. As bombas quimicas constituiam pronto socorro nos pequenos incendios. Todo material rodante, inclusivé 4 pipas, eram tirados por muares.
 
O pessoal, muares e material da seção foram acomodados em uma das casas alugadas para a estação central de urbanos á rua do Quartel, hoje Onze de Agosto, exatamente onde funcionavam as oficinas do Diario Oficial. 

Era um velho sobrado pertencente ao Visconde de Vergueiro, adaptada pelo diretor de Obras Publicas sr. dr. Candido Rodrigues. Foi necessária também a organização de um regulamento pelo qual a seção se regesse. Nesse mesmo ano, em 7 de julho, foi baixado o primeiro regulamento privativo dessa instituição, organizado pelo comandante da seção, que o modelou pelo do Rio. 
Foi seu primeiro comandante, nomeado por ato de 24 de julho, ainda de 1880, o alferes José Severino Dias. que, como oficial instrutor servia no Corpo de Bombeiros da Corte, 
onde foi convidado para vir a São Paulo, organizar e comandar a seção recentemente criada pelo então presidente da provincia.

Este oficial foi pouco depois, pela Assembléa Provincial elevado a tenente. Demorou-se pouco tempo no cargo em que foi investido, sendo dispensado por divergencias que teve com o governo. 

Tem a data de 1 de março de 1883 o ato que o demitiu e que nomeou, para substitui-lo no comando interinamente, o tenente Manuel José Branco, do corpo de permanentes. Data, portanto, de 10 de março de 1880 a criação da secção de bombeiros. Foi ela o inicio, ou melhor o primeiro núcleo de homens instruidos no serviço de extinção de incêndio, ao redor do qual se reuniram pouco a pouco, outros elementos, vindo a constituir a magnifca corporação de bombeiros que hoje possuem os paulistas e que sem exagero, podemos afirmar, é pelo menos igual á melhor corporação congenere do Brazil.

Texto extraído da Revista IHGSP - vol. 13
O Corpo de Bombeiros de São Paulo pelo Major Pedro Dias de Campos

Pesquisador: Sgt Eduardo Marques de Magalhães 

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