TRANSCRIÇÃO DO DEPOIMENTO - CEL NELSON FRANCISCO MATTEDI
Data: novembro 2014
Local: CCB
Presentes: Cel Alfonso Gill - Cel Nilton Divino D'Addio - Cel Wilson Leite - Cinegrafista
O Coronel Mattedi nasceu em Santa Barbara do Oeste, no interior de São Paulo, em 28/09/1933, tendo como amigo de infância, o Hélio Barbosa Caldas, que alguns anos depois, também ingressou na Força Pública (e que acabou se transformando em uma das lendas do CB).
Fez o então Curso Primário na própria cidade natal, mas por falta de escolas, teve que fazer o ginásio e colégio em Campinas, onde estudou em regime de internato.
Ao voltar para Santa Bárbara, deu algumas aulas particulares, pois a situação financeira da família que já não era boa agravou-se ainda mais após o falecimento de sua mãe.
Um de seus alunos tinha um irmão, de nome Salomão, que estava se preparando para prestar exames na Escola de Oficiais da Força Pública e o procurava com frequência para tirar dúvidas nas diferentes matérias do exame.
O pai dos alunos, vendo a sua capacidade fez de tudo para que acompanhasse seu filho nos exames à Força Pública em São Paulo, patrocinando inclusive a sua inscrição.
Foi assim que acabou prestando exames, no final de 1951, sendo ambos aprovados e ingressando no Curso Preparatório em 1952. Junto com eles, também prestou exames o Caldas, que não conseguiu aprovação neste ano. Ao término do primeiro ano do Curso Preparatório, o seu conterrâneo Salomão, mesmo à revelia do pai, desistiu do curso enquanto ele, aproveitando-se das férias, prestou exames ao CFO sendo aprovado e ganhando assim, um ano de curso.
Nesta nova turma, acabou fazendo grande amizade com o Vianna (Nilton Vianna), que posteriormente chegaria a Comandante Geral da PM), frequentando sua casa e estudando e passeando sempre juntos, durante os 3 anos de CFO, que concluíram em 1955.
O Viana acabou sendo o primeiro colocado da turma e Mattedi o terceiro. A amizade entre ambos era tão grande, culminando com um casamento simultâneo, que aconteceu na igreja de N.S. Auxiliadora, ao lado do Quartel General, tendo como celebrante o Capelão da FP.
Inicialmente ambos os casais foram morar na Parada Inglesa, um ao lado do outro, mas logo em seguida, Mattedi mudou-se para a região do Ibirapuera, em apartamento cedido por seu sogro. Em breve, consegue um financiamento na Caixa Beneficente o que lhe possibilitou comprar uma pequena casa na Vila Olímpia. Com o crescimento da cidade essa casa quase foi desapropriada para o prolongamento da Av. Faria Lima, sendo atualmente um imóvel muito valorizado e que ainda é seu.
Sua transferência para o Corpo de Bombeiros ocorreu ao término do Curso de Formação de Oficiais, por ter tirado a maior nota até então registrada na matéria de bombeiros. O instrutor era o Coronel Evaldo Pedreschi (que posteriormente chegou a ser Comandante Geral da PM).
Nessa época o CB era comandado pelo Tenente Coronel Armínio de Mello Gaia Filho, tendo como Subcomandante o Maj João Vieira Mattos, que não tinha experiência nos serviços de bombeiros.
Junto com Mattedi, veio também para o CB, o Aspirante Luiz Augusto Saviolli, que foi empregado na Seção Técnica, enquanto Mattedi foi para a Seção de Compras, na área administrativa.
Saviolli acabou se destacando na elaboração de especificações técnicas, que a partir de então estariam acessíveis ao público em geral. Vale lembrar que a Prefeitura Municipal já exigia que as plantas das edificações fossem aprovadas no CB, só que as regras não eram claras, por não serem de domínio público, havendo denúncias de divergências quanto ao nível de exigências entre projetos semelhantes.
Na época de sua chegada, a Força Pública era organizada nos moldes do Exército, sendo que o CB equivalia a um Batalhão. Até pouco tempo antes, eram três as companhias, mas recentemente, havia sido criada a 4ª Companhia, especializada em salvamentos, além da 5ª Companhia, especializada em Comunicações.
A 1ª Companhia era comandada pelo Cap. Dagoberto Veltri, que não era muito envolvido com as atividades de bombeiros e não era muito estimado por seus comandados.
A 2ª Companhia era comandada pelo Cap. Cyrênio Leite Penteado.
A 3ª Companhia era comandada pelo Cap. José da Cunha Caldeira Jr, este sim, “um bombeirão” e bastante identificado com o treinamento dos novos oficiais.
A 4ª Companhia, ou Companhia de Salvamento, foi criada em decorrência do incêndio no Clube Elite 28, em junho de 1953, onde morreram 53 pessoas, sendo um cabo bombeiro. Nessa ocorrência, o Ten. Clovis de Mello, que era o comandante do Socorro, ficou preso pela multidão, nas escadarias do prédio. A 4ª Cia ficou alojada no Cambuci enquanto a 3ª Companhia foi transferida para o Ipiranga.
O primeiro comandante da 4ª Companhia foi o Capitão Paulo Augusto de Figueiredo, o Paulão, que por ser vítima de alcoolismo, não era muito dedicado ao serviço e à instrução.
A 5ª Companhia era encarregada dos serviços de comunicações e composta por pessoal do Quadro de Especialistas. Seu comando era do Capitão Francisco Guedes de Lacerda, tendo como auxiliar, o Tenente Walter Carlson.
Um pouco antes de sua chegada ao CB, mas sem saber precisar a data certa, o antigo Sistema de Alarmes Gamewell havia sido desativado, dando lugar ao sistema de comunicações por rádio. O sistema foi desativado por já não atender mais às necessidades da cidade e por apresentar falhas constantes.
Houve o caso de um incêndio que aconteceu muito próximo à 2ª Zona (2ª Cia), ocasião em que o alarme não funcionou, obrigando que as pessoas se dirigissem correndo àquele posto, para o devido acionamento dos bombeiros. O caso repercutiu e após constatarem que a fiação não dispunha de eletrodutos, decidiu-se pela sua desativação e consequente substituição pelo sistema de rádios.
Inicialmente foram adquiridos 12 equipamentos móveis marca Motorola, algumas estações fixas, instaladas nas Companhias e na Central e um transmissor instalado na Av. Paulista, no prédio do Hospital Santa Catarina. Todos esses equipamentos eram valvulados.
Mesmo não havendo mais o sistema Gamewell, nas ocorrências de incêndios o comandante da prontidão era acompanhado pelo telegrafista e pelo corneteiro. O telegrafista não mais se utilizava do telégrafo via caixas de alarme para se comunicar com a central, o que agora era feito por rádio, enquanto o corneteiro transmitia as ordens do comandante aos seus subordinados. Os mais antigos compreendiam bem as ordens, mas os mais novos encontravam dificuldades (logo depois, também o uso da corneta foi abolido).
As ocorrências em princípio eram atendidas pelo chamado “trem de socorro” que era assim constituído:
1ª viatura – conduzia o oficial comandante da prontidão – não transportava água – levava equipamentos e era dotada de bomba de alta pressão.
2ª viatura – Auto Bomba convencional com bomba de 500 gpm e tanque de água.
3ª viatura – Auto Tanque – visava suprir as deficiências da rede de hidrantes – bomba de 250 ou 500 gpm – tanque de cerca de 4000 litros.
Nessa época os postos de bombeiros eram comandados por sargentos.
Perguntado a respeito dos serviços de manutenção, o Coronel Mateddi sorriu (sempre foi a sua grande paixão) e esclareceu que no passado, o Corpo de Bombeiros tinha uma excelente oficina mecânica, mas por decisões superiores, os equipamentos e pessoal foram transferidos para as oficinas do STM (Serviço de Transporte e Manutenção da FP), que também passaram a se responsabilizar pela manutenção dos veículos do CB. Quando chegou ao CB, este não dispunha de oficinas.
Acontece que a frota da FP era constituída de viaturas Chevrolet, enquanto a frota do CB era prioritariamente de veículos Ford, que por possuírem motor mais potente (V8) eram mais adequadas (potência e velocidade). As viaturas do CB não eram a prioridade e os problemas foram se acumulando, chegando-se ao ponto de o socorro ser atendido por caminhões da FP, com equipamentos e moto bomba em sua carroceria.
Ele mesmo fez uma adaptação em um antigo caminhão tanque do DAE (Departamento de Águas e Esgotos), que com uma moto bomba amarrada com cordas ao tanque, passou a atender ocorrências.
A situação se agravava e ele descobriu um mecânico que não havia sido transferido ao STM, Sr Pascoal Nigro, e com ele e após a devida autorização do Comandante, transplantaram peças entre os caminhões que estavam parados, colocando um deles em funcionamento (Auto Tanque). Isso foi motivo de muita alegria na prontidão, que para comemorar, jogou o então Tenente Mattedi no tanque de lavar mangueiras; uma tradicional forma de comemoração entre os bombeiros.
A partir desse fato, o então Tenente Celestino (Celestino Henriques Fernandes) iniciou um movimento no sentido de que as oficinas do CB fossem restabelecidas e o então Comandante do CB motivou uma inspeção do Comando Geral da FP ao STM e o resultado foi a volta das oficinas para a Central do CB, tendo o então Tenente Celestino como responsável e Mattedi como seu colaborador.
Na sequência, trataram de construir um prédio próprio para a Manutenção, o que foi feito pelo Serviço de Engenharia em terreno localizado no Parque Dom Pedro II, à Av. Prefeito Pereira Passos (nº 88). Foi inicialmente construído o prédio da frente, com fachada de tijolo à vista e posteriormente e aos poucos, os demais barracões e prédios. A partir dessa mudança de endereço é que o então Tenente Mattedi passa a trabalhar diretamente na Manutenção.
A inauguração desse novo prédio deve ter ocorrido no carnaval de 1960.
Perguntado se a unificação da FP com a GC trouxe algum reflexo para o CB, entende que não, pois de início, as vagas do CB continuaram a ser preenchidas com pessoal especializado.
Quanto ao prédio central, lembra-se que estava bastante deteriorado e ao deixarem o local, foram inicialmente para o prédio da 4ª Companhia, no Cambuci e logo em seguida, para o prédio da antiga Assembleia Legislativa, no Parque Dom Pedro II, dividindo espaços com outro órgão público. Passado pouco tempo, nova mudança acontece, indo o Comando do Corpo de Bombeiros para imóvel à Rua São Joaquim (nº 580). Enquanto isso, as obras da “nova Central” à Rua Anita Garibaldi, agora engolida pela Praça Clóvis Bevilaqua, continuavam paralisadas.
Lembra-se de que ao deixarem o prédio antigo da Central, em março de 1967, o Comandante do CB na época era o Paulo Marques, que de quepe na mão, acenava e dizia “adeus quartel”.
Ainda sobre viaturas, esclareceu que a “John Bean” era a viatura do comandante de socorro; tinha uma bomba de pistão, de alta pressão e tanque pequeno.
No geral, as viaturas eram montadas em chassis Ford, motor V8, com comando de válvulas na cabeça e bombas de 500 gpm e tanques de 4000 litros.
Perguntado a respeito da viatura “Kronenburg” disse que dispunha de tanque elíptico e as bombas eram fracas.
As primeiras viaturas fabricadas no Brasil não iam bem, especialmente porque a caixa de transmissão era de corrente. No comando do Paulo Marques foi comprada uma dessas bombas, que após ficar pouco tempo na capital, acabou sendo transferida para o interior. Apresentavam também, problemas de fixação do tanque.
Citou também um engenheiro do STM, de nome Gurgel e apelidado de Doutor Piteira, que fez alguns carros de bombeiro, mas que por não se prestarem ao serviço de extinção de incêndios, foram transferidos para o Departamento de Águas e Esgotos (DAE).
Perguntado a respeito dos grandes incêndios acontecidos em São Paulo, esclareceu que no dia do incêndio no Edifício Joelma (1º/02/1974) estava na escala de Comandante de Serviços, mas por estar a serviço na Mercedes Benz, quando chegou ao local as primeiras providências já haviam sido tomadas. Lembra-se da rede de hidrantes do prédio que havia sido fechada, lembra-se das dificuldades de acesso à cobertura do prédio, lembra-se de que as escadas foram empregadas no limite de suas possibilidades, permitindo o socorro dos que estavam nas sacadas dos andares mais baixos (parapeito das janelas dos banheiros), mas muitas pessoas se jogavam por não resistir à fumaça.
Uma das consequências do incêndio do Joelma foi o início da regulamentação que passou a exigir as escadas enclausuradas. Houve resistência das construtoras, mas nas reuniões que participou, justificava com a necessidade de se proteger a vida humana.
Falou a seguir, da aprovação das Especificações Técnicas do CB, que foram aprovadas pelo Governador Marin, quando substituiu Maluf (Decreto 20811, de 11 de março de 1983). Houve uma influência muito forte do Maj. Eduardo Assumpção (que depois chegou a comandar o CB e a PM), pois trabalhava na Casa Militar e desfrutava de amizade pessoal com o Gov. Marin. Houve resistência por parte das construtoras e a pedido do Governador Marin, foi dado um prazo mais elástico para a efetiva implantação.
Mattedi chega ao Comando do CB por indicação do Coronel Vianna, que exercia importante função junto ao Comando da PM o que o levaria logo a seguir, ao posto de Comandante Geral da PM. Mattedi recebeu o comando das mãos do Coronel Alcione, que em função de mudanças na legislação (limite de cinco anos no posto de coronel), deixou o comando do CB repentinamente. De início, o seu comando foi exercido de forma interina.
Mattedi entende que seu mérito foi o de reunir pessoas competentes com diferentes missões. Cita por exemplo, o Tenente Constantino (Carlos Alberto Constantino) que viabilizou a construção de muitos postos na capital em parceria com a Prefeitura Municipal.
No interior, visitava prefeitos e em parceria com estes, construía postos.
Outros nomes citados por Mattedi como muito importantes ao seu comando, foram o Sanches (Manoel Iglesias Sanches) e Sampaio (Edson Sampaio) na área de finanças, Pellegrina (Osvaldo Pellegrina Martins) na área operacional, Mancini (Amador Mancini) na área técnica, Braz (João Antonio Braz Neto) na manutenção e Herculano (Herculano Gonzaga de Carvalho) na instrução.
Perguntado a respeito da transferência do prédio da Escola de Bombeiros no Barro Branco para uso da Academia de Polícia Militar, informou tratar-se de uma requisição da PM.
Com relação ao IPT, informou que contou com grande colaboração daquele órgão, no que se refere ao projeto de confecção de bombas de incêndio, aprimoramento dos mecanismos de fixação de tanques e na segurança dos tanques de armazenamento de álcool.
Entre os anos de 1973/74, realizou viagem de estudos aos Estados Unidos, onde conheceu as instalações da Gremmor, que era uma fabricante de equipamentos de combate a incêndios com filial no Brasil.
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