1916 - A CISTERNA DA MORTE

                                                      "𝗦𝗮𝗿𝗴𝗲𝗻𝘁𝗼 𝗘𝗟𝗜𝗘𝗭𝗘𝗥 𝗔𝗥𝗚𝗨𝗘𝗟𝗟𝗘𝗭"


𝟏𝟗𝟏𝟔 - 𝐀 𝐂𝐈𝐒𝐓𝐄𝐑𝐍𝐀 𝐃𝐀 𝐌𝐎𝐑𝐓𝐄
Dentre os bombeiros que mais se distinguiram nos trabalhos de salvamento do poceiro, Candido Isaias, merece menção especial o sargento Eliezer Arguellez, que foi, sem duvida, o que mais provas deu de abnegada coragem. A reportagem do jornal A GAZETA, ouviu-o sobre as impressões que trouxe de Rocinha. São das mais dolorosas, das mais pungentes.
- A minha turma, de que era comandante o tenente Guimarães, foi para o poço sinistro na tarde de domingo. Embarcamos na estação da Luz no comboio das 16 horas, tendo regressado no dia seguinte pelo último trem, que chegou em São Paulo ás 20 horas e meia.
Durante a sua permanência em Rocinha, no local da trágica ocorrência, o sargento Arguellez desceu três vezes até ao fundo da cisterna maldita, onde o desventurado poceiro foi por fim sepultado.
Da primeira vez desceu sozinho e pouco se demorou, relativamente, no bojo do poço fatídico. Foi isso ás 20 horas de domingo. A sua chegada no fundo do abismo em ruinas, o Candinho estava de braços cruzados, tendo o corpo, até acima dos ombros, coberto de lodo.

O poceiro recebeu-o mal, quis agredi-lo logo que ficou com os movimentos dos membros superiores desembaraçados.
- Os bombeiros de São Paulo são carrascos! - apostrofou Candido Isaías.
- Sossega homem, eu vim para te salvar.
- Salvar de que? Tenho gemadas não preciso de mais coisa nenhuma.
E como continuasse em atitude agressiva, o sargento julgou prudente subir de novo, tendo apenas removido algumas caçambas do lodo que envolvia o poceiro soterrado.
Essa primeira expedição de Eliezer Arguellez ao fundo da cisterna demorou apenas meia hora. Muito mais demorada foi a segunda descida, operada ás duas horas da madrugada do dia seguinte. Uma vez embaixo, na companhia de Candido Isaias, o sargento devolveu o cinto para o alto, afim de que também descesse Leopoldo Jacinto de Paulo, o cabouqueiro que abrira a cisterna da morte.
Arguellez e Jacinto permaneceram lá embaixo nada menos de quatro horas! Durante esse tempo, empregaran-se ativamente na remoção do entulho e da água que minava de todos os lados da cisterna em quantidade pasmosa.

𝗢 𝘀𝗮𝗿𝗴𝗲𝗻𝘁𝗼 𝗘𝗹𝗶𝗲𝘇𝗲𝗿 𝗔𝗿𝗴𝘂𝗲𝗹𝗹𝗲𝘇
De uma abertura produzida pelos constantes desmoronamentos, dois palmos acima do lugar em que se achava Candinho, os dois abnegados trabalhadores conseguiram a pouco e pouco livrar o corpo do poceiro dos tijolos e terra que o cobriam. Nesse trabalho foram os dois valiosamente auxiliados pelo supliciado, e graças a isso pode este ficar, por fim, em situação menos horrorosa, por isso que podia movimentar o busto e os braços.
Foram quatro horas de atividade estafante num ambiente irrespiravel, tão irrespiravel que a própria lanterna de que serviam por várias vezes se apagou por falta de oxigênio no ar!
Da terceira vez, ás 7 horas do mesmo dia, depois de uma hora apenas de descanço, o sargento Arguellez desceu sozinho. O lodo voltara então a afogar Candido Isaias até o pescoço. Novo trabalho, novos esforços incansaveis! Afinal, livre mais uma vez o poceiro, o seu corajoso salvador atou-lhe quatro cintos, o primeiro na perna direita, o segundo no ângulo das coxas, em comunicação com o terceiro, no quadril, e o quarto, no peito.
Ligados que foram esses cintos aos cabos de suspensão, todos mais ou menos de polegada e meia de diametro, o sargento Arguellez subiu para dar instruções aos seus companheiros de cima sobre o modo por que deviam puxar as cordas.
Voltando ao fundo da cisterna, o bombeiro avisou Candinho:
- Olhe, vamos subir. Prepare-se.
- Então me dê um pau para empurrar.
Não havia pau ali. Arguellez foi novamente ao alto para busca-lo. Levou-o para baixo e deu ao pobre homem. Começaram ali, a um sinal seu, os puxões de cima, gradativamente aumentando. Os cabos ficaram tão tensos, que soavam como cordas de violão ao contato das mãos do bombeiro! Mas nada. O esforço prodigioso que do alto faziam, auxiliados pelo próprio Candinho que empurrava o chão com o pau que pedira, não conseguira mover o soterrado uma linha sequer do seu lugar! Essas tentativas tiveram, afinal, de ser interrompidas.
- Parem, que me está doendo! gritava o infeliz poceiro.
Novas tentativas feitas posteriormente não tiveram êxito melhor, mesmo porque Candinho implorava que não continuassem a puxá-lo, pois sentia dores horríveis.
Só nessa ocasião o soterrrado dava mostras de sofrimento.
- Você está sentindo alguma coisa? perguntára Arguellez.
- Nada, não sinto nada.
- Não te doem as pernas? Não estarão fraturadas?
- Não sinto nada, estou bem assim.
O poceiro já devia estar com as pernas paralisadas, porque não mais as sentia!
Candinho fizera-se amigo de Arguellez. Sempre que este subia, por qualquer motivo, chorava como uma criança, e implorava:
- Você não me abandone. Não me deixe aqui sozinho. Se você estivesse no meu lugar, eu não o abandonaria.
- Mas tive, por fim, que deixá-lo declarou-nos o sargento de bombeiros. Não me era possível ficar mais tempo lá embaixo. Sentia me doente, tinha a impressão de que iria perder as forças. Quando cheguei no alto punha sangue pela boca e pelos ouvidos.
- Sentiu a morte de Candido Isaias?
- Senti muito. Pobre homem. Devia ter sofrido como ninguém mais sofreu no mundo. Mas a sua morte era esperada, era fatal: se o não tiramos de lá, é por que não havia meio de tirá-lo.
- E se protegessem fortemente as paredes do poço e depois completassem a sua desobstrução com picaretas, até livrar completamente o Candinho dos tijolos que o prendiam?
- Não era possivel fazer isso. Mas o dr. Monlevade e a sua turma de trabalhadores da Companhia Paulista conseguiram isso.
No entanto não tiraram o poceiro. Não fizeram mais do que apressar a sua morte, quando o nosso objetivo foi justamente retarda-la até que circunstâncias mais favoráveis se nos apresentassem.
Candido Isaias, morreu saindo do suplício, não pelas mãos dos homens, mas pela mão da morte, o milagre não se operou e o infeliz trabalhador acabou por ser enterrado vivo!
O que era humano fazer para salva-lo foi feito, com atos de verdadeiro heroismo.
𝐏𝐞𝐬𝐪𝐮𝐢𝐬𝐚𝐝𝐨𝐫: 𝐄𝐝𝐮𝐚𝐫𝐝𝐨 𝐌𝐚𝐫𝐪𝐮𝐞𝐬 𝐝𝐞 𝐌𝐚𝐠𝐚𝐥𝐡𝐚𝐞𝐬 𝐓𝐞𝐱𝐭𝐨 𝐏𝐮𝐛𝐥𝐢𝐜𝐚𝐝𝐨 𝐧𝐨 𝐣𝐨𝐫𝐧𝐚𝐥 𝐀 𝐆𝐚𝐳𝐞𝐭𝐚 𝐝𝐞 𝟐𝟔 𝐝𝐞 𝐣𝐮𝐥𝐡𝐨 𝐝𝐞 𝟏𝟗𝟏𝟔.
"𝗝𝗮𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗦𝗲𝗿ã𝗼 𝗘𝘀𝗾𝘂𝗲𝗰𝗶𝗱𝗼𝘀"

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