CINE OBERDAN - LIÇÕES DO PASSADO

10 de abril de 1938 - A ocorrência verificada no Cine Oberdan causou grande consternação à população da nossa operosa capital. A cidade inteira ainda sobre a primeira impressão da alucinante catástrofe que veio ceifar a vida de três dezenas de inocentes crianças.

O simples grito de fogo! dado involuntariamente por um espectador, no auge do entusiasmo pelo desenrolar da película, causou essa terrível catástrofe. Caso idêntico passou-se nesta capital, anos atrás, no Cine Pathe (atual Recreio), quando ali era exibido o filme "Gabiria", uma das maravilhas do cinema mudo. Durante a exibição o filme inflamou-se sendo logo abafado pelos próprios operadores que assim evitaram o seu desenvolvimento ao celuloide que é um campo vasto para a propagação das chamas. 

Entretanto o povo não se conteve e precipitou-se para as portas de saída, rasgando-se e pisando-se, resultando disso numerosos feridos e um morto. Este rolou da escada que conduzia as gaierias e além da queda foi pisado pela multidão.

Podemos, ainda, recordar fato verificado a 3 de Agosto de 1930, quando, no distrito da Penha, nesta Capital, dois menores de 14 a 15 anos instalaram um cinema, para divertimento com outras crianças. Obtiveram dos pais um quarto com 12 metros quadrados, possuindo porta e uma janela. Ali foi improvisada a sala de espetáculos com toda a imprudência própria das crianças e negligência ou talvez ignorância dos adultos que consentiram em tal, por não estarem ao par do perigo que apresentava um filme cinematográfico. Essas inexperientes crianças colocaram a maquina atrás da única porta existente, impedindo assim a saída pela mesma no caso de incêndio. 

Num dado momento, por descuido de um dos operadores a fita inflamou-se estabelecendo-se, então, um indescritível pânico entre os petizes que lutavam para sair com vida daquele quarto transformado de um momento para outro num verdadeiro inferno dantesco. Das 26 crianças que ali se encontravam, 14 pereceram em vista das queimaduras recebidas, pois o fogo, na sua faina macabra, alcançou as vestes das inocentes crianças, as quais viram-se imediatamente envolvidas pelas chamas. 

Quiseram sair do quarto, porém a maquina colocada inconscientemente atrás da porta impedia que a mesma fosse aberta. Assim foram sacrificadas aquelas inocentes crianças.
Na minha opinião tais ocorrências poderiam ser sanadas pelas autoridades competentes, isso dependia somente delas. De fato, se as autoridades organizassem um quadro de individuos especializados em pirologia, tirados naturalmente do brilhante Corpo de Bombeiros e Ihes incumbissem a missão de
difundir nas escolas primárias, grupos e ginásios os meios de defesa que a criança deveria tomar numa situação idêntica as
acima citadas, o mal seria gradativamente debelado. Com efeito, só assim a criança iria com o espírito prevenido a um cinema ou a outro lugar em que houvesse aglomeração. 
Se houvesse qualquer anormalidade no recinto a criança, por mais nervosa que fosse, por certo lembrar-se-ia, das instruções recebidas, tomaria atitude, procurando evitar massa, humana que nessas ocasiões só poderia ser comparada a um "estouro da boiada", tão comum nos campos de criação. A idéia acima sugerida não era uma novidade. Se folheassemos revistas técnicas dos Corpos de Bombeiros de diversos países como Itália, Inglaterra, Estados Unidos e outros, veriamos comumente reportagem ou artigos referentes a esse problema: a divulgação dos meios preventivos que a criança ou melhor o escolar deveria tomar num momento de indescritível pânico. 
Na Itália podiamos apresentar como exemplo frisante o da cidade de Milão. Nessa cidade os escolares recebiam conselhos e instruções que eram dados nas próprias escolas por oficiais do "Corpo Pompieri di Milano". Porém, não ficava nisso a ação das autoridades italianas iam mais além, pois não se contentando somente em difundir teorias, patrocinavam visitas dos escolares aos quartéis dos homens do fogo, onde aprendiam a manejar com aparelhos de primeira necessidade num princípio de incêndio, tais como o Foamite, Minimax, bombas manuais e outros. O mesmo faziam os ingleses, os franceses e os alemães. Aos bombeiros, esses grandes heróis tanto na paz como na guerra, compete essa honrosa missão. Não nos esqueçamos que nossas indústrias, nossos lares, enfim nossas vidas se acham sob a vigilância dos homens do fogo.

Aliás, a missão do bombeiro já fora definida pelo saudoso Coronel Affonso Luiz Cianciulli,
no seu lema: 

"A cidade dorme, o bombeiro vela. Tudo pela
humanidade. É a nossa missão".

Pesquisador: Sgt Eduardo Marques de Magalhães 

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