SÃO PAULO NAO PEGOU FOGO
O Corpo de Bombeiros, com grandes serviços prestados e gozando da simpatia popular e nunca se rebelara. Diziam os líderes do movimento que a greve era uma imposição dos estômagos vazios, não dos soldados, mas de suas famílias.
Na manhã do dia 13 de janeiro de 1961, o Quartel Central da Corporação, na Praça Clóvis Beviláqua, no centro da capital, ficou tomado pelos paredistas. Num ato de grande simbologia, o tenente Celestino Henrique Fernandes determinou ao Cabo Borges pai do ( Ariovaldo Borges De Oliveira Filho ) que içasse a escada magirus em frente ao quartel, ornando-a, em seu topo, com uma bandeira preta, em sinal de “luto pelas mortes das nossas reivindicações”.
Na sequência, a telegrafia do Corpo de Bombeiros transmitiu a ordem de greve para os destacamentos de todas as outras zonas da capital. Os comandantes de prontidão começaram a enviar os caminhões e o pessoal rumo ao quartel principal, centro da
mobilização. Uma vez no quartel, os carros foram estacionados.
Os soldados do fogo deflagavam o primeiro movimento de insubordinação em toda a existência do Corpo de Bombeiros.
Estamos passando fome, estamos em greve!
A partir desse instante, todos os chamados para o Quartel Central, eram respondidos com estas palavras: "Por motivos alheios à nossa vontade não estamos atendendo ao público. Queira dirigir-se ao Palácio do Governo".
A ordem era não atender a nenhum chamado, exceto quando houvesse vidas em perigo.
O principal foco do movimento - Quartel Central dos Bombeiros, na praça Clóvis Beviláqua - passou a ser o centro de todas as atenções. Os soldados do fogo (todos integrantes da Corporação) permaneciam em sua sede, e uma imensa multidão se aglomerava na praça, na expectativa dos acontecimentos. Os oficiais rebeldes esperavam, a qualquer instante, a chegada de uma tropa de choque da Força Pública, com ordem para por fim à situação."
Para evitar confrontos mais sérios, os
milicianos entregaram as armas, que foram recolhidas aos depósitos de cada unidade.
Ainda no dia 13, quando a situação no quartel parecia contornada, com os cabeças do movimento votando pela retomada dos trabalhos, de inopino, chegaram oficiais (capitão Sidney Gimenez Palácios, tenentes Raul da Luz, Jatyr de Souza e Paulo Tenório da Rocha Marques) de outras unidades da Força Pública, anunciando a adesão ao movimento, o que inviabilizava o acordo de trégua. Um novo escrutínio foi realizado e a greve teve continuidade, com o apoio maciço da tropa.
No início da noite a bandeira negra foi retirada da escada de incêndio e hasteada sobre um carro-tanque. Era o símbolo da rebeldia dos soldados do fogo.
No Quartel dos Bombeiros anunciou-se que as tropas chegariam às 2 horas da madrugada. Ordem da oficialidade: "Preparar a casa para receber o Exército Nacional". O que não se admitia era uma "Expedição Punitiva" por parte da Força Pública. Seguiram-se momentos de dramática espera, de dúvida. As tropas do Exército não chegaram na hora prevista, mas alguns parlamentares visitaram o Quartel e informaram com segurança sobre a vinda do Exército e, portanto, estava afastada a hipótese de intervenção pela Força Pública. As queixas se sucediam, entre os soldados e oficiais. Um deles, voz embargada, dizia que "o Governador é um senhor de engenho e a maioria dos deputados, feitores que acatam suas ordens, evitam uma melhoria insignificante para estes homens (os soldados), enquanto recebem polpudos subsidios". A maioria dos soldados repetia, a todo instante:
"É preferível morrer com honra do que viver com esse salário de fome".
O drama que se arrastara durante um dia e uma noite chegou ao seu climax, no Quartel dos Bombeiros, ao alvorecer do dia 14. Exatamente às 5 horas, os Generais Costa e Silva e Franco Ferreira, comandando cerca de 300 homens, sitiaram a Praça Clóvis Beviláqua. Carros de assalto, armados com canhões, tanques, metralhadoras, eram apontados para o edifício, soldados dispunham-se ao longo dos muros do Quartel.
Entendimentos entre o general Franco Ferreira e o 1° Tenente Ernani Benedito Tolosa se traduzem no hasteamento da bandeira vermelha da corporação no mastro do Quartel. Os panos negros, sinal de luto, são retirados. O general aperta a mão do Tenente e vai-se. Parece encerrada a primeira fase da ocupação do Quartel. A rendição dos bombeiros revoltados está quase consumada. O novo comandante manda tocar os toques de "preparar para partir", e as numerosas viaturas no patio tem seus motores e sirenes ligados. Os bombeiros tem a ordem de seguir para suas zonas, localizadas nos bairros da cidade.
Mas a situação está longe de estar resolvida. Soldados e Oficiais, inconformados com as ordens que recebem e que representam o fim do movimento, dão sinais de intenso desespero. Vários choram, outros gritam para fazer-se ouvir acima das sirenes. A maioria dos bombeiros aparenta obediência. Mas a tropa do Exército, de armas embaladas na frente do Quartel, e a rigidez do cordão aumentam sua hesitação. Tudo depende do primeiro carro, que bloqueia a saída do Quartel. O motorista vai e volta, por entre os gritos dos companheiros, que sobem no carro, depois descem, e procuram uma atitude definitiva.
Finalmente, um Oficial do Corpo de Bombeiros decide ir ao primeiro carro e toma assento no banco dianteiro. Chora copiosamente. A viatura N° 318, do C.B, viatura de Salvamento do Cambuci, deixa o local e dirige-se para sua sede na zona periférica. A crise parece resolvida. O segundo carro, porém não pode partir porque lhe falta uma peça no motor, retirada propositadamente. Um Tenente grita:
"Podem atirar. Nós somos Soldados de brio. Não estamos desobedecendo ordens. Eles não podem fazer isso conosco", abre a camisa e desnuda o peito em sinal de desafio.
Nessa altura, é grande o numero de populares postados em frente ao Quartel. O segundo carro está pronto. Seu motorista liga o motor. Alguns Soldados, porém, sentam-se ou deitam-se diante das rodas da viatura. Outros procuram remove-los, mas a idéia contagia vários bombeiros. Os que estavam sobre a viatura descem. O carro não vai sair mais. Todos os bombeiros descem de seus carros. As sirenes se calam. Um silêncio cheio de tensão se faz sentir. Chega o momento mais crítico da operação. Como os bombeiros não saem, Soldados do Exército assentam em frente ao portão uma metralhadora pesada ponto 50. As munições são distribuídas.
Um Oficial do Corpo de Bombeiros pede ao corneteiro que execute o toque funebre. O grupo de jornalistas colocado entre os Soldados e os bombeiros começa a se desfazer rapidamente. Os praças do Exército estão visivelmente nervosos.
O novo Comandante do Corpo de Bombeiros com uma intervenção feliz, salva a situação. Sai do Quartel e ordena que as tropas do Exército deixem a frente da corporação. As tropas se deslocam para mais longe, ao lado do Palácio da Justiça.
Os bombeiros ouvem as palavras de seus Tenentes e de seu novo comandante, reunidos no pátio do Quartel. Logo depois, gritos anunciam uma decisão comum.
O Corpo de Bombeiros retira-se de sua sede. Apelam para o Coronel Caetano Figueiredo Lopes. Querem que os acompanhe até o Palácio dos Campos Elíseos. O Comandante recusa e ordena a retirada para os Quartéis distritais. As viaturas deixam o Quartel da Praça Clóvis. Uma a uma, passam entre os populares. Alguns ainda choram. Terminou a sedição na Praça Clóvis Bevilaqua.
As tropas do Exército acham-se nesta altura na Praça João Mendes. Parte da coluna já se afastou há vários minutos. O Oficial em comando estabelece guarda ao Quartel e limita o trânsito na Praça Clóvis Bevilaqua.
Para surpresa de seu novo Comandante e das Forças do Exército, as viaturas do Corpo de Bombeiros, em lugar de se retirarem para as sedes distritais, haviam seguido para o Palácio dos Campos Elísios, pelo percurso os bombeiros acenavam ao povo e faziam soar as sirenes. Chegando no Palácio os bombeiros foram recebidos por dois Generais do Exército e um Major do Corpo de Bombeiros.
O General Costa e Silva, com apenas um bastão, penetrou no grupo dos bombeiros e disse: "Isto é uma baderna. Será dissolvida a bala. Voltem imediatamente para os Quartéis. E repete: Pensem nos seus filhos e nos homens que poderão morrer".
O General ordena que os bombeiros voltem a seus carros e avisa que está para chegar a coluna mecanizada do Exército. Um Oficial dos bombeiros ordena que as viaturas sejam abandonadas no local. Os motoristas levam as chaves. Os bombeiros reunem-se em formação militar e abandonam o Palácio. O General Costa e Silva ordena a seus subordinados que acompanhem os componentes do Corpo de Bombeiros até o Quartel da Praça Clóvis Bevilaqua, presos.
Nos minutos seguintes, os bombeiros dirigem-se em marcha militar para a Praça Clóvis; durante todo o percurso cantam o Hino da Corporação. Ao entrar na Praça Clóvis, cercados pelas tropas do Exército, fazem continência aos Oficiais e rumam para seu Quartel. Na entrada seu novo Comandante ordena que a coluna pare e manda que os Oficiais dêem um passo a frente. E diz: "Os senhores estão presos por haverem cometido o maior ato de insubordinação. Haviam-se comprometido a voltar ao serviço e foram aos Campos Elísios. Sinto muito, sinceramente".
A tropa foi recolhida nos Quartéis em regime de rigorosa prontidão, todos deveriam permanecer nos quartéis e só poderiam sair por pouco tempo em caso de força maior.
Vários Oficiais foram presos por insubordinação e enviados para Grupamentos de Taubaté, de Sorocaba, Capital e Quartéis do Exército na Capital.
A intranqüilidade dominou a população, na expectativa de graves acontecimentos. No domingo, dia 15, um fato doloroso veio agravar a situação: dois bombeiros (Sgt Tomás Cleodon de Medeiros e Sgt Antenor Gonçalves Teixeira), que haviam voltado ao serviço morreram num acidente com o carro que se dirigia a um local de incêndio. A comoção entre os companheiros foi grande e novas medidas de segurança foram adotadas pelo Exército.
Apesar de todas as medidas de prevenção, soldados e oficiais da Força Pública conseguiram organizar e realizar uma passeata, com a participação de mães, esposas e filhos dos soldados presos. Centenas de mulheres e crianças (a maioria com vestes rasgadas e descalça) desfilaram na tarde de segunda-feira, dia 16 (apesar da proibição), pelas ruas centrais da cidade, durante cerca de duas horas. Cerca de 200 soldados e sargentos, fardados, acompanharam o desfile, também integrado por operários, parlamentares e estudantes.
As mulheres e crianças conduziam faixas e cartazes cujos dizeres mais constantes eram sobre os baixos vencimentos dos soldados:
"Estamos com fome", "Queremos pão e não canhões".
A passeata chegou ao fim sem nenhum incidente. Mas a situação continuou no mesmo pé. A noite, o Governador Carvalho Pinto dirigiu uma proclamação ao povo, afirmando:
"A ordem foi restabelecida - e será mantida".
Enquanto isso, quando o movimento grevista era mais intenso, o Governador Carlos Lacerda enviava a São Paulo, 72 Oficiais e praças do Corpo de Bombeiros da Guanabara, (que aqui ficaram aquartelados no quartel do Cambuci), na Subsistência da Força Pública, no rancho dos Oficiais, na hora da refeição, os Oficiais da Força Pública de São Paulo retiraram-se do refeitório em sinal de protesto contra a atitude assumida pelos Oficiais dos bombeiros da Guanabara, e no rancho dos praças, ao entrarem os bombeiros da Guanabara, os da Força Pública levantaram-se e jogaram para o ar seus pratos e a refeição que já estava servida.
A greve teve também seu momento de tragédia humana. Quando o segundo sargento Osvaldo Batista, da Força Pública do Estado, tentou solução de desespero para si e sua família. Conseguindo sair da prisão para visitar a família, Osvaldo deu formicida a seus filhos, suicidando-se em seguida. Sua esposa esperava um filho para aqueles dias.
Esse duplo filicidio acompanhado de suicídio, cometido num momento de desespero pelo Sargento Osvaldo Batista, em Guarulhos, numa vila chamada, "Tranquilidade", agravou o "tonus" de tragédia que vinha identificando a luta dos grevistas de São Paulo. Osvaldo Batista, chefe de guarnição da Radio patrulha, aderira ao movimento, e, nas primeiras horas da manhã do dia 13, uma sexta-feira, fora preso com outros companheiros de farda, no quartel do Barro Branco.
Cinco dias longe de sua familia acabaram por fazer com que ele soubesse que seus filhos (Carlos Alberto, Wilson Roberto, Milton, Waldir e Marlene) estavam passando privações. E, aproveitando licença para visitar a esposa (Dona Joaquina Antunes Batista), que passava mal e esperava o sexto filho, foi a casa e tentou envenenar a todos com formicida. Apenas Carlos Alberto, de oito anos de idade, e Wilson Roberto, de cinco, acompanharam (sem o saber) o Sargento Osvaldo Batista no gesto que ele esperava ser uma solução. Os outros salvaram-se. Essa tragédia agravou ainda mais o nervosismo reinante.
No dia 15 de janeiro, ainda que os ânimos estivessem estirados, o ímpeto grevista arrefeceu. A presença das tropas do Exército, o compromisso com algumas das reivindicações corporativas e a campanha de repressão contra os líderes da insurreição desmotivaram os grevistas. De acordo com os termos do inquérito, a responsabilidade maior da vaga indisciplinar recaiu nas costas da baixa oficialidade – os tenentes. Apenas oito capitães foram indiciados, e nenhum tenente-coronel ou coronel. Os detidos foram levados ao quartel de Sorocaba, no interior do estado, onde esperaram os julgamentos civis e militares.
Fontes:
- Revista O Cruzeiro ano XXXIII - n° 17 de 04/02/1961 - pág. 122;
- História: Questões & Debates, Curitiba, volume 64, n.1, p. 207-226, jan./jun. 2016;
- Revista Manchete - edição 458 - 28/01/1961;
- Jornal O Estado de São Paulo - 14/01/1961 - 15/01/1961 - 17/01/1961.
Pesquisa: 3° Sgt PM Eduardo Marques de Magalhães
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